E como todos sabem, chegou a sexta-feira. Aquele dia maravilhoso da semana em que lemos o artigo semanal de José Sarney, publicado sempre na Folha de São Paulo. O autor de Brejal dos Guajas - aquele livro que, segundo Millôr, seria motivo para impeachment - resolveu externar suas preocupações com os direitos individuais.
É... Não deixa de ser interessante... Bom para quem gosta das coisas que o maranhense escreve, né? O que, confesso, não é o meu caso. Eu, vejam que coisa, prefiro não guardar o que Sarney tem a dizer acerca dos direitos individuais. Da mesma forma que jamais leria um texto de Lênin sobre a paz social. Questão de gosto mesmo. Abaixo transcrevo alguns trechos do artigo assinado pelo imortal senador, intercalados por intervenções minhas (íntegra aqui):
A TEORIZAÇÃO da arte da política começa com Aristóteles. Ele foi o primeiro a querer saber tudo sobre o seu tempo e como os homens faziam para gerir essa máquina do tempo. (...)
Acima algo que não passa de uma opinião pessoal dele. O senador quer ver o início da - como é mesmo? - "arte da política" em Aristóteles? Tudo bem... Eu, por outro lado, insisto que Platão já havia tratado do assunto no seu A República. Mas sigamos:
(...) Hitler tinha horror à política. Na tentativa de evitar a Guerra Mundial, um seu general disse que era chegada a hora da política e ele respondeu: "abomino a política". O ser autoritário é sempre amargurado com a política: o move a força como solução e, para alcançá-la, veste-se do ressentimento, da inveja, do puritanismo, como uma máscara para esconder a hipocrisia.
Devo dizer que concordo inteiramente com a assertiva grifada em negrito: "O ser autoritário é sempre amargurado com a política." E curioso como essa é uma verdade imutável, que se verifica em infindáveis reedições através dos tempos. Assim como Hitler foi um tirano amargurado com a política, hoje também é possível encontrar gente que subverte a ideia daquilo que é a política, subjugando-a com sua tirania.
(...) Foi Lênin quem aplicou como método as leis da guerra à política. Ele não a via como um instrumento democrático para a conquista do poder, mas como uma disputa cuja finalidade não era o jogo das ideias, e sim, como na guerra, uma luta entre inimigos não para vencer o adversário, mas exterminá-lo -e nisso toda crueldade devia ser usada. Daí o pensamento dele tão divulgado de que os fins justificam os meios. (...)
Devo dizer a vocês, leitores, que Sarney entendeu perfeitamente como funcionava a mente sociopata de Lênin. E digo mais: não é qualquer um que entende assim tão bem o legado do leninismo. Basta ver que, ainda hoje, muitas pessoas idolatram o assassino soviético, tratando-o como um verdadeiro herói. É preciso muita intimidade com a obra de Lênin para chegar a tal nível de compreensão... Parabéns ao ilustre escritor daquele livro onde a principal personagem era uma prostituta, cujos mamilos excitavam até os cães. Sigamos:
Hoje, com a sociedade de comunicação, os princípios da guerra aplicados à política são mais devastadores do que a guilhotina da praça da Concorde. O adversário deve ser morto pela tortura moral disseminada numa máquina de repetição e propagação, qualquer que seja o método do vale-tudo, desde o insulto, a calúnia, até a invenção falsificada de provas.
Confesso que me perdi um pouco. Sarney está falando de algum caso específico? Alguém em especial teria sido vítima dessa tal "tortura moral"? Alguém conhecido? Quem, atualmente, está sendo vítima de insulto, calúnia e até de invenção falsificada de provas? Aliás, se me permitem o aparte, a expressão "invenção falsificada de provas" é mesmo fascinante! Uma dessas construções de vanguarda, que os leitores só terão o condão de compreender daqui a alguns séculos. Me pergunto: o que seria uma invenção verdadeira de provas? Mas, enfim... Continuemos:
Como julgar uma democracia em que não se tem lei de responsabilidade da mídia nem direito de resposta, diante desse tsunami avassalador da internet e enquanto a Justiça anda a passos de cágado? Como ficam os direitos individuais, a proteção à privacidade, o respeito pela pessoa humana?
Sarney estava preocupado quando redigiu essas linhas... Em especial com os tais direitos individuais e com o respeito pela pessoa humana, como ele mesmo escreveu. O que terá acontecido para deixá-lo assim? Não tenho ideia... Lendo com alguma rapidez os grande jornais do país não logrei encontrar nada que pudesse ser considerado calúnia ou - como era mesmo? - "invenção falsificada de provas"... Pelo contrário: todas as denúncias parecem incrivelmente verossímeis.
Notem que ele chega a lamentar a inexistência de uma "lei de responsabilidade da mídia", o que quer que seja isso. Aliás, lembrei de algo curioso: Lênin também queria uma lei assim na URSS! Sim, eu sei que é apenas uma coincidência, mas não me custa deixar aqui a lembrança...
Há alguns anos discutimos esses temas numa Conferência das Nações Unidas em Bilbao. Conclusão: saímos todos certos de que acabou a privacidade e os direitos individuais estão condenados a serem dinossauros de letras nas Constituições.
Nossa! E eu - ignorante que sou - pensava que "dinossauros de letras" eram apenas aqueles escritores ultrapassados, ruins mesmo, que se querem novos regionalistas da literatura brasileira, mas que, em verdade, não são mais do que rabiscadores ligeiros de um palavreado enfadonho. Vivendo e aprendendo, não é?
Mais uma vez me chamou a atenção essa preocupação dele com os tais direitos individuais... Sinceramente não sei o que aconteceu para tocar tão fundo a sensibilidade de Sarney. Vai ver ele ficou sabendo que o aparelho judiciário aqui do Amapá foi movimentado contra mim, a pedido do então Presidente do TRE, apenas em razão de uma opinião pessoal (vejam aqui e aqui)... Ou então descobriu que foram movidos mais de 100 processos contra jornalistas do Amapá, em 2006, a pedido da coligação da qual o próprio Sarney fazia parte (aqui). Vai saber... Só ele poderá nos dizer o que foi o catalizador desse sentimento de preocupação com os direitos individuais, não é?
É... Não deixa de ser interessante... Bom para quem gosta das coisas que o maranhense escreve, né? O que, confesso, não é o meu caso. Eu, vejam que coisa, prefiro não guardar o que Sarney tem a dizer acerca dos direitos individuais. Da mesma forma que jamais leria um texto de Lênin sobre a paz social. Questão de gosto mesmo. Abaixo transcrevo alguns trechos do artigo assinado pelo imortal senador, intercalados por intervenções minhas (íntegra aqui):
A TEORIZAÇÃO da arte da política começa com Aristóteles. Ele foi o primeiro a querer saber tudo sobre o seu tempo e como os homens faziam para gerir essa máquina do tempo. (...)
Acima algo que não passa de uma opinião pessoal dele. O senador quer ver o início da - como é mesmo? - "arte da política" em Aristóteles? Tudo bem... Eu, por outro lado, insisto que Platão já havia tratado do assunto no seu A República. Mas sigamos:
(...) Hitler tinha horror à política. Na tentativa de evitar a Guerra Mundial, um seu general disse que era chegada a hora da política e ele respondeu: "abomino a política". O ser autoritário é sempre amargurado com a política: o move a força como solução e, para alcançá-la, veste-se do ressentimento, da inveja, do puritanismo, como uma máscara para esconder a hipocrisia.
Devo dizer que concordo inteiramente com a assertiva grifada em negrito: "O ser autoritário é sempre amargurado com a política." E curioso como essa é uma verdade imutável, que se verifica em infindáveis reedições através dos tempos. Assim como Hitler foi um tirano amargurado com a política, hoje também é possível encontrar gente que subverte a ideia daquilo que é a política, subjugando-a com sua tirania.
(...) Foi Lênin quem aplicou como método as leis da guerra à política. Ele não a via como um instrumento democrático para a conquista do poder, mas como uma disputa cuja finalidade não era o jogo das ideias, e sim, como na guerra, uma luta entre inimigos não para vencer o adversário, mas exterminá-lo -e nisso toda crueldade devia ser usada. Daí o pensamento dele tão divulgado de que os fins justificam os meios. (...)
Devo dizer a vocês, leitores, que Sarney entendeu perfeitamente como funcionava a mente sociopata de Lênin. E digo mais: não é qualquer um que entende assim tão bem o legado do leninismo. Basta ver que, ainda hoje, muitas pessoas idolatram o assassino soviético, tratando-o como um verdadeiro herói. É preciso muita intimidade com a obra de Lênin para chegar a tal nível de compreensão... Parabéns ao ilustre escritor daquele livro onde a principal personagem era uma prostituta, cujos mamilos excitavam até os cães. Sigamos:
Hoje, com a sociedade de comunicação, os princípios da guerra aplicados à política são mais devastadores do que a guilhotina da praça da Concorde. O adversário deve ser morto pela tortura moral disseminada numa máquina de repetição e propagação, qualquer que seja o método do vale-tudo, desde o insulto, a calúnia, até a invenção falsificada de provas.
Confesso que me perdi um pouco. Sarney está falando de algum caso específico? Alguém em especial teria sido vítima dessa tal "tortura moral"? Alguém conhecido? Quem, atualmente, está sendo vítima de insulto, calúnia e até de invenção falsificada de provas? Aliás, se me permitem o aparte, a expressão "invenção falsificada de provas" é mesmo fascinante! Uma dessas construções de vanguarda, que os leitores só terão o condão de compreender daqui a alguns séculos. Me pergunto: o que seria uma invenção verdadeira de provas? Mas, enfim... Continuemos:
Como julgar uma democracia em que não se tem lei de responsabilidade da mídia nem direito de resposta, diante desse tsunami avassalador da internet e enquanto a Justiça anda a passos de cágado? Como ficam os direitos individuais, a proteção à privacidade, o respeito pela pessoa humana?
Sarney estava preocupado quando redigiu essas linhas... Em especial com os tais direitos individuais e com o respeito pela pessoa humana, como ele mesmo escreveu. O que terá acontecido para deixá-lo assim? Não tenho ideia... Lendo com alguma rapidez os grande jornais do país não logrei encontrar nada que pudesse ser considerado calúnia ou - como era mesmo? - "invenção falsificada de provas"... Pelo contrário: todas as denúncias parecem incrivelmente verossímeis.
Notem que ele chega a lamentar a inexistência de uma "lei de responsabilidade da mídia", o que quer que seja isso. Aliás, lembrei de algo curioso: Lênin também queria uma lei assim na URSS! Sim, eu sei que é apenas uma coincidência, mas não me custa deixar aqui a lembrança...
Há alguns anos discutimos esses temas numa Conferência das Nações Unidas em Bilbao. Conclusão: saímos todos certos de que acabou a privacidade e os direitos individuais estão condenados a serem dinossauros de letras nas Constituições.
Nossa! E eu - ignorante que sou - pensava que "dinossauros de letras" eram apenas aqueles escritores ultrapassados, ruins mesmo, que se querem novos regionalistas da literatura brasileira, mas que, em verdade, não são mais do que rabiscadores ligeiros de um palavreado enfadonho. Vivendo e aprendendo, não é?
Mais uma vez me chamou a atenção essa preocupação dele com os tais direitos individuais... Sinceramente não sei o que aconteceu para tocar tão fundo a sensibilidade de Sarney. Vai ver ele ficou sabendo que o aparelho judiciário aqui do Amapá foi movimentado contra mim, a pedido do então Presidente do TRE, apenas em razão de uma opinião pessoal (vejam aqui e aqui)... Ou então descobriu que foram movidos mais de 100 processos contra jornalistas do Amapá, em 2006, a pedido da coligação da qual o próprio Sarney fazia parte (aqui). Vai saber... Só ele poderá nos dizer o que foi o catalizador desse sentimento de preocupação com os direitos individuais, não é?
0 comentários:
Postar um comentário