Ai, ai... Muito me diverte o - como direi? - engajamento de certos artistas dessepaiz. No Brasil, aliás, chegou-se ao absurdo de exigir de todo e qualquer artista a defesa de uma "causa", o dever de carregar uma "bandeira de luta". Não basta ser bom ator, ou produzir boa música. Isso foi relegado ao segundo plano. Importante mesmo é vestir a camisa do pogreçismo politicamente correto.
Tomemos o exemplo de Roberto Carlos, o proclamado "Rei" da música brasileira. Não sou lá muito fã do homem, mas me vejo forçado a reconhecer que ele compôs várias peças grandiosas do gênero. Experimentem ler as letras: há ali poesia de primeira categoria, infelizmente interpretada por uma voz que - se me permitem - não enriquece o conjunto da obra. Mas eis que o "Rei", apesar da multidão de fãs que conquistou, sempre teve que conviver com a crítica de certa intelequitualidade brasileira, que acusou a falta de - como é mesmo? - "compromisso político" de suas canções. Chegou-se ao extremo de dizer que Roberto Carlos foi só uma jogada de marketing da ditadura militar - aquela que foi uma "ditabranda", lembram? - para desviar a atenção do povo dos "horrores produzidos nos porões do DOI/CODI."
O exemplo diametralmente oposto é o de Chico Buarque, aquele que produziu música de excelente qualidade, principalmente quando não tentou contorcer seus miolos na esperança de camuflar algum sentido revolucionário nas palavras. Vejam os seguintes versos, por exemplo:
"E também prá me perpetuar Em tua escrava Que você pega, esfrega Nega, mas não lava..."
Trata-se de uma construção muito bela e poeticamente interessante, que, politicamente, não quer dizer absolutamente nada! E vejam que coisa curiosa: não tem que querer dizer nada mesmo! Eu, um tanto conservador em matéria musical, prefiro Tatuagem e Atrás da porta, que se preocupam apenas com boa e velha poesia, do que o engajamento de polichinelo que se encontra em coisas apequenadas como Geni e o Zepelim e Acorda amor. Mesmo porque, com todas as vênias de estilo, devo dizer que certo pogreçismo nacional exagera e enxerga política até mesmo onde política não há. Vejam:
"A minha gente sofrida Despediu-se da dor Pra ver a banda passar Cantando coisas de amor O homem sério que contava dinheiro parou O faroleiro que contava vantagem parou A namorada que contava as estrelas parou Para ver, ouvir e dar passagem"
O que vai acima é bonito e até divertido. Mas querer encontrar ali no meio qualquer referência à luta de classes é forçoso e estúpido. É música. E só música. Talvez foi o exagero político que se criou em torno de Chico, tratado como uma espécie de baluarte da esquerda nacional, que o levou a percorrer mares nunca d'antes navegados, entregando-se à arte de escrever livros. E aí, caros, a coisa começou a ficar preta, ou melhor, afrodescendente...
Antes de mais nada eu esclareço aos fãs ardorosos do trovador de olhos verdes: sim, eu li alguma coisa da - vá lá... - "obra" literária de Chico. Pouca, é verdade... Mesmo porque a nenhum ser humano deve ser dado folhear mais do que dois livros rascunhados pelo sujeito... O problema do "Chico enquanto escritor" é que ele tentou ser, na prática, aquilo que os pogreçistas queriam que ele sempre tivesse sido: um intelequitual engajado na defesa dozoprimido. Não é sem motivo que a melhor resenha da literatura produzida por ele foi feita por Diogo Mainardi, na última VEJA. Disse o "Oráculo de Ipanema": "Eu já resenhei um romance de Chico Buarque: Benjamim. Nele, um homem à beira da morte relembra o passado, misturando realidade e sonho. Em Leite Derramado, seu último romance, um homem à beira da morte relembra o passado, misturando realidade e sonho. Sim, é exatamente isso. Mesmo porque, convenhamos, não se poderia esperar muito de um sujeito que começa uma frase dizendo: "Fui dar em Budapeste..." Pois é... Não pega bem...
Mas por que este escriba está aqui discorrendo acerca da politização dos nossos artistas? O que me leva a apontar o dedo contra a já badalada "obra" do "Chico enquanto escritor" - que nada mais é do que a materialização do "Chico enquanto ativista político"? Bem, a verdade é que o faço em defesa dozoprimido. Sim, juro! E, neste caso, o meu oprimido - ou a minha oprimida - é a Sandy. Sim, aquela mesma: a filha do Xororó (ou seria do Chitãozinho?) e irmã do Júnior. Do que estou falando? Explico.
A Sandy, por meio de seu Twitter, achou por bem se manifestar contra as pretensões continuístas de Lula e do petismo. Ah, claro que ela tomou bordoadas de todos os lados, afinal o pogreçismo sempre pede por debates de ideias, desde que todas lhes sejam favoráveis ao final... Tudo se deu no último dia sete de julho, quando a moça, ou melhor, a senhora escreveu o seguinte:
"Resolvi ver de novo as notícias e o q encontro?: 'Lula diz que pode concorrer ao terceiro mandato'. Só faltava essa..."
Êpa! Mas ela escreveu só isso? Sim, só isso. E tomou patada dos petralhas mesmo assim? Sim, mesmo assim. Vocês sabem, né? Fale mal da mãe de um petista, mas não toque em Lula e em seus desejos totalitários. E como a cantora (ela ainda canta?) reagiu aos ataques - no mais das vezes, rasteiros - que lhe foram dirigidos pela manada ensandecida? Com muita classe, eu diria. Explicou por que abomina o terceiro mandato, contextualizando a questão na realidade internacional, inclusive mostrando que, via de regra, apenas uma reeleição é permitida no mundo civilizado. E arrematou:
"Mas, só pra deixar claro, se eu tiver uma opinião política que ache pertinente, vou expressar, até porque estou no meu direito como contribuinte e eleitora. Assim como qualquer outro cidadão, seja ele artista, padeiro, psicólogo, lixeiro ou professor. Isso se chama democracia."
Dizer o quê? Sandy acertou na mosca! Por que ela, "enquanto artista", não pode ter uma opinião política, ao passo que boa parte dos doutores acadêmicos do Brasil dobraria de bom grado as orelhas a fim de escutar as palavras de Chico, o cantor engajado? Está bastante óbvio, não? É porque a "causa" de Chico é a "causa" do pogreçismo lulista, enquanto que a de Sandy, ao que parece é a da democracia. E democracia, vocês sabem, provoca urticárias nessa gente abespinhada, que ouve A Banda com lágrimas nos olhos toda vez, acreditando estar escutando uma espécie de versão brasileira da Marselhesa.
No mais, por que se deveria criticar qualquer opinião política de Sandy, enquanto se aceita como dogma do pogreçismo aquilo que sai da boca de um escritor, que conseguiu dizer que "escrever é uma chatice"? Confesso que, de certa forma, eu até o entendo... Escrever as coisas que Chico escreve deve ser mesmo muito chato... Quase quanto escrever que "quando você pula, pula até suar"... Eu, por exemplo, acho que Chico disse uma rematada tolice! Escrever é algo fascinante, desde que se tenha algo de bom e bonito para colocar no papel. Sentar para "dar em Budapeste", convenhamos, não deve ser mesmo nada animador.
Tomemos o exemplo de Roberto Carlos, o proclamado "Rei" da música brasileira. Não sou lá muito fã do homem, mas me vejo forçado a reconhecer que ele compôs várias peças grandiosas do gênero. Experimentem ler as letras: há ali poesia de primeira categoria, infelizmente interpretada por uma voz que - se me permitem - não enriquece o conjunto da obra. Mas eis que o "Rei", apesar da multidão de fãs que conquistou, sempre teve que conviver com a crítica de certa intelequitualidade brasileira, que acusou a falta de - como é mesmo? - "compromisso político" de suas canções. Chegou-se ao extremo de dizer que Roberto Carlos foi só uma jogada de marketing da ditadura militar - aquela que foi uma "ditabranda", lembram? - para desviar a atenção do povo dos "horrores produzidos nos porões do DOI/CODI."
O exemplo diametralmente oposto é o de Chico Buarque, aquele que produziu música de excelente qualidade, principalmente quando não tentou contorcer seus miolos na esperança de camuflar algum sentido revolucionário nas palavras. Vejam os seguintes versos, por exemplo:
"E também prá me perpetuar Em tua escrava Que você pega, esfrega Nega, mas não lava..."
Trata-se de uma construção muito bela e poeticamente interessante, que, politicamente, não quer dizer absolutamente nada! E vejam que coisa curiosa: não tem que querer dizer nada mesmo! Eu, um tanto conservador em matéria musical, prefiro Tatuagem e Atrás da porta, que se preocupam apenas com boa e velha poesia, do que o engajamento de polichinelo que se encontra em coisas apequenadas como Geni e o Zepelim e Acorda amor. Mesmo porque, com todas as vênias de estilo, devo dizer que certo pogreçismo nacional exagera e enxerga política até mesmo onde política não há. Vejam:
"A minha gente sofrida Despediu-se da dor Pra ver a banda passar Cantando coisas de amor O homem sério que contava dinheiro parou O faroleiro que contava vantagem parou A namorada que contava as estrelas parou Para ver, ouvir e dar passagem"
O que vai acima é bonito e até divertido. Mas querer encontrar ali no meio qualquer referência à luta de classes é forçoso e estúpido. É música. E só música. Talvez foi o exagero político que se criou em torno de Chico, tratado como uma espécie de baluarte da esquerda nacional, que o levou a percorrer mares nunca d'antes navegados, entregando-se à arte de escrever livros. E aí, caros, a coisa começou a ficar preta, ou melhor, afrodescendente...
Antes de mais nada eu esclareço aos fãs ardorosos do trovador de olhos verdes: sim, eu li alguma coisa da - vá lá... - "obra" literária de Chico. Pouca, é verdade... Mesmo porque a nenhum ser humano deve ser dado folhear mais do que dois livros rascunhados pelo sujeito... O problema do "Chico enquanto escritor" é que ele tentou ser, na prática, aquilo que os pogreçistas queriam que ele sempre tivesse sido: um intelequitual engajado na defesa dozoprimido. Não é sem motivo que a melhor resenha da literatura produzida por ele foi feita por Diogo Mainardi, na última VEJA. Disse o "Oráculo de Ipanema": "Eu já resenhei um romance de Chico Buarque: Benjamim. Nele, um homem à beira da morte relembra o passado, misturando realidade e sonho. Em Leite Derramado, seu último romance, um homem à beira da morte relembra o passado, misturando realidade e sonho. Sim, é exatamente isso. Mesmo porque, convenhamos, não se poderia esperar muito de um sujeito que começa uma frase dizendo: "Fui dar em Budapeste..." Pois é... Não pega bem...
Mas por que este escriba está aqui discorrendo acerca da politização dos nossos artistas? O que me leva a apontar o dedo contra a já badalada "obra" do "Chico enquanto escritor" - que nada mais é do que a materialização do "Chico enquanto ativista político"? Bem, a verdade é que o faço em defesa dozoprimido. Sim, juro! E, neste caso, o meu oprimido - ou a minha oprimida - é a Sandy. Sim, aquela mesma: a filha do Xororó (ou seria do Chitãozinho?) e irmã do Júnior. Do que estou falando? Explico.
A Sandy, por meio de seu Twitter, achou por bem se manifestar contra as pretensões continuístas de Lula e do petismo. Ah, claro que ela tomou bordoadas de todos os lados, afinal o pogreçismo sempre pede por debates de ideias, desde que todas lhes sejam favoráveis ao final... Tudo se deu no último dia sete de julho, quando a moça, ou melhor, a senhora escreveu o seguinte:
"Resolvi ver de novo as notícias e o q encontro?: 'Lula diz que pode concorrer ao terceiro mandato'. Só faltava essa..."
Êpa! Mas ela escreveu só isso? Sim, só isso. E tomou patada dos petralhas mesmo assim? Sim, mesmo assim. Vocês sabem, né? Fale mal da mãe de um petista, mas não toque em Lula e em seus desejos totalitários. E como a cantora (ela ainda canta?) reagiu aos ataques - no mais das vezes, rasteiros - que lhe foram dirigidos pela manada ensandecida? Com muita classe, eu diria. Explicou por que abomina o terceiro mandato, contextualizando a questão na realidade internacional, inclusive mostrando que, via de regra, apenas uma reeleição é permitida no mundo civilizado. E arrematou:
"Mas, só pra deixar claro, se eu tiver uma opinião política que ache pertinente, vou expressar, até porque estou no meu direito como contribuinte e eleitora. Assim como qualquer outro cidadão, seja ele artista, padeiro, psicólogo, lixeiro ou professor. Isso se chama democracia."
Dizer o quê? Sandy acertou na mosca! Por que ela, "enquanto artista", não pode ter uma opinião política, ao passo que boa parte dos doutores acadêmicos do Brasil dobraria de bom grado as orelhas a fim de escutar as palavras de Chico, o cantor engajado? Está bastante óbvio, não? É porque a "causa" de Chico é a "causa" do pogreçismo lulista, enquanto que a de Sandy, ao que parece é a da democracia. E democracia, vocês sabem, provoca urticárias nessa gente abespinhada, que ouve A Banda com lágrimas nos olhos toda vez, acreditando estar escutando uma espécie de versão brasileira da Marselhesa.
No mais, por que se deveria criticar qualquer opinião política de Sandy, enquanto se aceita como dogma do pogreçismo aquilo que sai da boca de um escritor, que conseguiu dizer que "escrever é uma chatice"? Confesso que, de certa forma, eu até o entendo... Escrever as coisas que Chico escreve deve ser mesmo muito chato... Quase quanto escrever que "quando você pula, pula até suar"... Eu, por exemplo, acho que Chico disse uma rematada tolice! Escrever é algo fascinante, desde que se tenha algo de bom e bonito para colocar no papel. Sentar para "dar em Budapeste", convenhamos, não deve ser mesmo nada animador.
10 comentários:
Para os inimigos, tudo. Para os inimigos, a lei.
É um ótimo texto. Parabéns. E olha que sou fã dele, heim?
Tirar umas férias é bom, mas deixa um pouco de saudade do blog.
Mas voltar e ver um texto belíssimo como este é revigorante!
Muito bom, amigo! Acertou em tudo. Concordo com meu xará lá de cima.
Só uma coisa: SE PREPARA QUE A PATRULHA VAI CHEGAR COM TUDO!!1
Escolher a "grande" Sandy em detrimento de Chico Buarque mostra bem a força intelectual deste blog. Parabéns!
Pronto, conseguiu se igualar ao Azevedo e ao Mainardi. Está bem contente eu suponho.
Mas qual é a sua autoridade profissional para questionar a capacidade poética e musical do Chico, um gênio brasileiro? Francamente, você deveria se envergonhar de vez!
Hahaha! E aí? Já começou a sofrer assédio das "chiquititas"?
"Fui dar em Budapeste" é mesmo o degrau mais baixo da literatura nacional!
Olááá!! Conheci há pouco o teu blog e adoro te ler, adoro essa coisa de "progrecista","progrecismo","intelequitualidade" então, é genial!!! hahaha
Mas vou te falar... ainda bem que estamos numa Democracia e podemos discordar de algumas coisas..Ahh naum é do Chico escritor não!! Confesso que gosto das canções dele. Acho bonitas. E olha que nem sou ex guerrilheira no poder rs. O que eu discordo " com veemência" hehe é vc dizer que a voz do "Rei" prejudica as composições dele.Caara eu jah acho que quando ele grava uma música, outros nem deveriam fazer o mesmo porque jamais conseguem interpretar tão bem como ele.A voz é pequena mas a capacidade de interpretação dele supre qualquer coisa.
Quanto a Sandy...que personalidade!! maravilhosa.
Parabéns pelo teu blog. Eh muito bom!!Sou Marineira mas agora toh com Serra tb.Naum falo bem dele mas falo mal da Dilma. Serve?! rsrs
Oi, Tami. Seja bem vinda.
Olha, também gosto de muitas músicas do Chico. Principalmente as que dão ênfase à poesia pura, sem se preocupar com mensagens politiqueiras. A meu ver, isso só diminui a obra dele. É como eu disse no texto: "Tatuagem" é muuuito melhor que "Acorda amor".
Sobre o Rei, admito que posso ter pegado meio pesado, né? Afinal, milhões de fãs (divididos em gerações tão diversas) não podem estar errados. O que quis dizer é que, a meu ver, a musicalidade dele não é tão grandiosa quanto a poesia de algumas de suas canções.
Sobre as eleições, só digo isso: vamos junto, fazer a #OndaVerdeAmarela e impedir que o Brasil caia nas mãos da terrorista!
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