sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O Procurador e o Comando de Caça à Santa.

Este Amapá, de onde escrevo, possui - como direi? - características ímpares... As coisas que acontecem aqui cotidianamente desafiam o bom senso e a lógica, empurrando-me a pensar que, na verdade, tudo não passa de uma grande Matrix. Do que estou falando? Explico.

Aqui, no extremo norte do Brasil, há a tradição do Círio de Nazaré, como todos devem saber. Mais famosa em Belém do Pará, ela também se estende até o Amapá, onde ocorre em menor proporção, como é óbvio. Pois bem, aqui criou-se a tradição de fazer peregrinações com a imagem na Virgem por toda a cidade. A Santa visita, assim, várias paróquias e, inclusive, órgãos públicos os mais diversos.

O entrevero surgiu quando o atual Procurador-Geral de Justiça, Iaci Pelaes, decidiu impedir que a imagem de Nossa Senhora, em peregrinação, visitasse a sete do Ministério Público Estadual. Como todos podem imaginar, deu-se o rebuliço. Até uma colega do ilustre Procurador, Procuradora Raimunda Picanço, apresentou uma representação ao Colégio de Procuradores na esperança de ver aquela decisão cair por terra. O Colegiado ainda não se manifestou, mas deverá fazê-lo em breve.

O que eu acho do episódio? Bem, confesso que fiquei surpreso ao saber que a visita da imagem de Maria ao MPE fora proibida. Pensei: "Bem, então todos os demais problemas sócio-políticos do Amapá (e são muitos!) devem ter sido resolvidos. Afina, o chefe maior do MPE não perderia tempo com algo assim se houvesse coisas mais importantes a fazer, suponho."

Reinaldo Azevedo, em seu blog discorreu sobre aquilo que chamou de "Comando de Caça ao Crucifixo" e a tara ideológica que empurra o Estado a constranger os católicos dessepaiz. Pois bem, se em São Paulo há a caça aos crucifixos nas repartições públicas, aqui criaram o Comando de Caça à Santa... Sim, o nome que inventei soa um tanto galhofeiro e - admito - ridículo. Como ridícula é a situação toda. Ou queremos crer que isso é coisa de uma sociedade séria, civilizada e inteligente? Não dá...

Na tal representação, a Procuradora Raimunda Picanço, católica, questionou aquilo que parece ser uma sorte de duplipensar do Procurador-Geral de Justiça. Isso porque, segundo ela, desde a posse de Iaci Pelaes estariam sendo realizados cultos evangélicos com alguma frequência dentro das dependências do MPE. Ah, claro! Quase me esqueci de dizer que - sempre segundo a mencionada representação - o chefe do Ministério Público no Amapá é... evangélico! Hum...

Pessoalmente, acho que isso faz a coisa descer um pouco mais de nível... Fosse só uma interpretação da tal laicidade do Estado, ainda estar-se-ia diante de um absurdo. Porém quando se considera que a Santa católica não pode entrar em um pédio público, mas os pastores evangélicos podem, o episódio ganha contornos de uma apequenada e ligeira disputa religiosa. E em pleno século XXI! Sempre muito afeito a dialogar com os Clássicos, fico me perguntando: "Será que era isso que Lutero tinha em mente, há alguns séculos?" Duvido... Vou além e, de braços dados com Santo Tomás de Aquino, pergunto: que mal os católicos fizeram a essa gente?

Neste ponto, explico que por "essa gente" entendo todo esse - vá lá... - moderno movimento encarregado de constranger os seguidores da Igreja que foi erguida sobre Pedro. Aí estão inseridos aqueles que caçam crucifixos, que querem proibir o ensino religioso e, claro, que fecham as portas à Virgem. Há coisas as mais absurdas acontecendo em todo o mundo... Costumo brincar com os amigos e dizer que o "novo oprimido" é homem, heterossexual, branco, católico e de classe média. Duvidam? Pois digam: qual ONG defende os direitos dele? Qual partido o representa? Que cotas o beneficiam? Pois é... Todo pogreçista tem um índio, um negro, um homossexual ou um pobre para chamar de seu. Mas ninguém liga para aquele pobre espécime antes mencionado...

Afirmei, antes, que nem apelar para a laicidade do Estado justifica bater a porta na cara da Santa, lembram? Pois é, não justifica mesmo. O Estado laico é aquele que não pauta suas ações de governo e suas decisões políticas de acordo com os desígnios religiosos. Mas não está escrito em lugar nenhum que um Estado laico deva esquecer sua história, suas raízes, suas tradições religiosas. Em outras palavras, pode-se dizer que o catolicismo - e suas imagens - já se fazia presente na vida pública nacional bem antes de muita autoridade sequer pensar em tomar posse. Nunca é demais lembrar que os constituíntes pediram a ajuda de Deus para promulgar a Carta de 88, não é? E o que está escrito nas cédulas monetárias do Real? A tradição católica brasileira é algo que está aí, posto. É um fato, não um gosto. E não é a opinião, a pretensão, ou a audácia de um ou outro que poderá mudar isso. Aliás - e aqui me torno um tanto provocador... -, pode-se dizer que a tradição católica, no Brasil, é maior e mais robusta que a evangélica... Se é para falar em um - vá lá... - "direito adquirido" de estar nas dependências do MPE, este seria, creio, muito mais facilmente reconhecido à Santa, do que aos pastores...

No fundo, até acho que o ilustre Procurador fez um favor à Santa. Mais que isso: a atitude dele deveria ser copiada pelos demais órgãos públicos do Amapá, afinal a Mãe do Cristo não deveria ser carregada para dentro de certos ambientes... Lembram do que dizia o Filho dela? "A César o que é de César. A Deus o que é de Deus." Assim, como católico que sou, acredito que a Virgem estaria mais segura - e sadia - resguardada ao tradicional altar de sua Igreja, longe de lugares - como direi? - "mundanos"...

7 comentários:

Catarina disse...

Decisão surpreendente mesmo. Difícil acreditar que semelhante distorção religiosa ainda exista nos dias de hoje. Pobre do seu estado.

Fábio disse...

Ué, não entendi. Devem liberar a santa e barrar o pastor? É isso? Assim que você defende igualdade e isonomia?

Lucas Torres disse...

Yashá, só posso dizer que estou cada vez mais ansioso para conhecer esse "seu" Amapá! É cada coisa que acontece aí. Até parece a terra do nunca!

Yashá Gallazzi disse...

Fábio, você sabia que o senso de humor e a ironia é algo próprio do homo sapiens? Pois é... Talvez sabendo disso você perceba por que não entendeu aquilo que eu escrevi. Fui muito sutil?

REFLEXÕES DIÁRIAS disse...

"A santa" Varias vezes se referindo à Santa. Que Santa? Há muitas santas canonizadas e todas no céu. A imagem de Maria não é a SANTA. É uma iamgem que a representa. Esse discurso popular e supresticioso me irrita. Se refira à imagem de Maria, de Nossa Senhora, já que tem formação cartolicam inimasegundo percebi. Mas dizer a Santa como escuto inumeras vezes nos jornais não importando qeu santaseja e confundiido imagem com a pessoa, isto pra mim é demais. Depois acham ruim quando porstestantes deizem que a iamgem e a santa por catolico é tudo a mesma coisa!

Yashá Gallazzi disse...

"Reflexões", quantas vezes dizemos que "o Planalto decidiu" alguma coisa, mesmo sabendo que quem decide é o Presidente?

Os recursos redacionais existem exatamente para serem usados, não? Está posto que a imagem da Santa não é "A" Santa. Assim como a imagem da cruz não é "A" cruz. Nem por isso deixamos de adorá-la na Páscoa, certo?

São coisas como figuras de linguagem e recursos de redação que fazem a inculta se tornar tão bela, se é que me faço entender...

Se nem assim a ideia ficou clara, devo dizer que o problema repousa mesmo na parte interpretativa do texto...

Anônimo disse...

Nossa Senhora é Rainha do Brasil pronto e acabou quer os protestantes aceitem ou não, o fato de um filho negar a maternidade de sua mãe não muda o fato, ela continuará sendo sua mãe, isso é estabelecido no plano natural (natureza), imagina uma maternidade estabelecida no plano sobre-natural (espiritual)estabelecida por Cristo que do alto da Cruz nos deu Maria por nossa Mãe. Com certeza Nossa Senhora ama muito seus filhos protestantes, afinal uma mãe não deixa de amar um filho rebelde.