Estou ouvindo música altíssima há mais de 24 horas. Música altíssima e de péssima qualidade. Tudo graças a algum vizinho, que não entende absolutamente nada sobre os pressupostos basilares da vida em sociedade. O mais curioso, porém, é que sempre há um vizinho estúpido morando perto de mim. Não importa onde seja a minha casa. Estou convencido de que, se morasse na Suíça, haveria alguém escutando Reginaldo Rossi no último volume em algum lugar dos Alpes.
O som, é verdade, nem chega com muita força no meu quarto. Mas faz-se ouvir com aborrecida nitidez nos aposentos do filhote. E a babá eletrônica se encarrega de propagar aquelas melodias saídas do inferno até mim. O efeito, acreditem, é ainda mais devastador: ouvir as músicas através do pequeno alto-falante faz parecer que estou lá, na festa primitiva onde os selvagens bebem, fumam, dançam e regridem, invariavelmente, até o estágio mais primitivo.
Selvagens? Sim, selvagens. Posso apostar que o tal vizinho é descendente de algum nativo trapaceiro que, para meu azar, escapou da doutrinação jesuíta. Deixou, com isso, de experimentar as brisas do mundo civilizado, preferindo continuar com seu ziriguidum, seu balacobado e seu telecotelo. Malditos jesuítas! Porque o deixaram fugir! Deveriam tê-lo perseguido, aprisionado e, por fim, amarrado ao mastro. E depois? Bem, depois teriam que arrancar dele uma declaração de arrependimento, afinal ouvir certo tipo de música que essa gente ouve é um pecado mortal!
Ah, bons tempos aqueles em que era a civilização que ditava as regras, enquadrando os bárbaros. Hoje são estes que se impõem àqueles, numa realidade que só pode conduzir ao mais tenebroso dos infernos. Basta ver a imensa quantidade de europeus que se mostra fascinada diante da tal "cultura" que flui dos ghetos modernos, onde essa perversa sociedade alternativa vive a tamborilar seu funk, seu pagode, seu axé, seu brega e seu calypso. Por que desistiram de catequizá-los? Por que resolveram se entregar ao pecado também? Minha última esperança, parece, ruiu...
E, não! Eu não sou imperialista de forma alguma! Dependesse de mim, nem as grandes navegações teriam existido. Já escrevi aqui no passado: no meu mundo ideal, a Europa continuariam sendo apenas Europa. A rica e bela cultura oriental estaria preservada para... os orientais. E os nossos nativos estariam, até hoje, batendo com o pé no chão a fim de trazer os mortos de volta à vida. Mas quê! Quiseram se expandir, mas não deram conta do recado... permitiram que alguns selvagens escapassem à doutrinação, o que acabou por permitir que o meu malfadado vizinho escutasse, no último volume, aquilo que ele acha que é música.
Percebam: não sou imperialista, mas não me furto em escolher um lado. Já que as tais grandes navegações acabaram acontecendo, devo dizer que prefiro Cortez a Atahualpa. Por quê? Bem, aquele explorou, pilhou e oprimiu com sua medicina. Não fosse a ganância da Europa, a penicilina nunca nos teria chegado. E tudo isso enquanto as magníficas a avançadas civilizações ameríndias se ocupavam de sacrificar suas crianças e suas virgens. Não é mesmo fascinante?
Dizem que Cortez - e aqui estou usando uma metáfora que simboliza todos os colonizadores - matou milhões. É, pode ser. Mas aqueles que ele deixou espacar eram os piores! Foram eles que deram origem aos selvagens atuais, que se ocupam de ouvir Reginaldo Rossi no último volume.
P.S.: Conheço a inteligência dos leitores habituais do blog, mas, considerando que os demônios da legião vivem aqui, devo dizer que o que vai acima só pode ser lido - e compreendido - se o botão da ironia estiver devidamente acionado.
3 comentários:
Acho que todo civilizado já teve algum vizinho selvagem.
"se morasse na Suíça, haveria alguém escutando Reginaldo Rossi no último volume em algum lugar dos Alpes"
HAHAHAHA! Muito boa!!! Espero que você nunca venha morar perto de mim! Quero distância desse seu ímã de selvagens!
Ah, bons tempos em que eles escutavam Reginaldo Rossi... Agora é só de Calcinha Preta pra baixo!
Postar um comentário