sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Minha entrevista ao Perspectiva Política.

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Caros, na última semana o blog Perspectiva Política, do meu querido amigo Bruno Kazuhiro, completou um ano de vida. Como parte das comemorações, ele teve a belíssima ideia de entrevistar os colunistas que ali publicam seus textos e este vosso criado, como se sabe, é um deles.

Abaixo transcrevo a íntegra da - se me permitem - excelente entrevista. Excelente não necessariamente pelas respostas, que couberam a mim. Mas pelas ótimas perguntas que me foram apresentadas, capazes de permitir uma satisfatória discussão de temas os mais variados. Divirtam-se:

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O Perspectiva Política, na pessoa de seu autor Bruno Kazuhiro, conversou com o colunista de sexta, Yashá Gallazzi, a respeito de suas opiniões políticas e pessoais, confiram:

1- Que influência a função de colunista do Perspectiva Política tem exercido na sua experiência pessoal? O que de positivo esta tarefa lhe traz?

Para começar, queria agradecer a oportunidade da entrevista. Além disso, queria parabenizar, publicamente, o Perspectiva Política pelo seu primeiro aniversário, louvando sua pluralidade e sua democracia.

Bem, ser colunista do blog é, antes de tudo, uma honraria tremenda. Qualquer um que se aventure na chamada “blogosfera”, como fiz no Construindo o Pensamento, se sentiria imensamente realizado ao receber semelhante convite. Por isso não pensei duas vezes na hora de aceitar o desafio, que, quero crer, venho cumprindo a contento. Neste período como integrante da equipe de colunistas do blog, pude enriquecer os conhecimentos pessoais e amadurecer algumas posições, principalmente por meio do debate travado com os leitores. É algo impagável!

2- Fale um pouco da sua vida pessoal: Como você se descreve como pessoa em poucas palavras?

Nunca é fácil falar de nós mesmos. Ainda mais em poucas palavras. Mas tento: considero-me, antes de qualquer outra coisa, alguém extremamente feliz. Aos 26 anos, posso dizer que tenho um trabalho que me agrada, uma esposa linda, companheira e apaixonante, além de um filho maravilhoso, hoje com oito meses. Minha família é a coisa mais importante que tenho, a ponto de dizer, sem sombra de dúvida, que deixaria de lado qualquer ambição outra a fim de estar com ela. Em relação àquilo que podemos chamar de “mundo exterior”, me considero um cético. Com isso, quero dizer que não acredito nessas utopias coletivistas do tipo “outro mundo possível”, ou “salvação da mãe terra”, ou “louvação a Pachamama”. De igual sorte, não me seduzem os modernos catastrofismos, que pretendem nos convencer da destruição iminente do mundo. Aquela que chamo de “igreja do aquecimento global dos últimos dias”, por exemplo, não pode ser levada a sério. Finalmente, gosto de me apoiar na lógica cartesiana, aquela que nos conduz paulatinamente pelos meandros dos questionamentos, até as respostas.

3- Qual a sua posição politico-ideológica? Por mais que o pensamento político tenha muitas facetas, como você delimitaria o seu?

Assim, de bate-pronto, diria que me agrada a ideia traçada por Anthony Giddens e batizada de “Terceira via”. A meu ver, a teoria do britânico aproxima, da forma mais clara e inteligente jamais imaginada, a moderna social-democracia e o social-liberalismo, apontando para um Estado socialmente necessário e regulador, que se ocupa fundamentalmente de saúde, educação, segurança pública e defesa externa. Mais que isso, entendo, é intervencionismo exagerado e prejudicial. Mas isso, admito, ainda é um tanto vago. Posso complementar dizendo que sou radical em alguns aspectos inegociáveis: radical contra o comunismo, o fascismo e afins; radical pela democracia representativa; e radical pelo sistema de liberdades individuais. No mais, alguns movimentos um tanto modernistas acabaram por confundir tanto o espectro político-ideológico, que fica difícil adotar um alinhamento – como direi? - “puro”. Eu, por exemplo, sou contra a descriminalização do aborto e das drogas, o que me empurraria para o lado dito “conservador”. Ao mesmo tempo, sou contra a pena de morte e as modernas restrições à imigração, coisa que me jogaria para mais perto do “progressismo”. Em resumo, prefiro dizer que minha ideologia é a democracia e as liberdades individuais. O resto é secundário.

4- Que livro você indicaria para os leitores do Perspectiva?

Essa é a pergunta mais difícil de todas! São tantos os livros que me agradam… Uma aposta certeira seria a “Carta de São Paulo aos Romanos”, uma espécie de “quinto evangelho”. Trata-se de uma obra fascinante, não apenas do ponto de vista teológico, mas social, político, ético e moral. Costumo dizer que todas as respostas que o ser humano precisa na vida estão nas cartas de São Paulo. Eu as recomendo vivamente!

Mas noto que você me pede apenas para “indicar” um livro, ou seja, não preciso necessariamente apontar qual é o meu preferido – mesmo porque é impossível ter só “um” preferido. Pois bem, aconselharia os leitores a se debruçarem sobre “A democracia na América”, de Tocqueville. Apesar de ser um clássico, não está entre os mais conhecidos aqui no Brasil, o que é uma pena. Trata-se de uma obra fascinante, que nos permite compreender o funcionamento daquilo que reputo a melhor, mais sólida e mais séria democracia que o mundo já conheceu.

Porém, ao ler a entrevista do também colunista Felipe Liberal, lembrei de outro grande clássico da literatura mundial: “1984″, de Orwell. Trata-se de outro livro fascinante, que também recomendo aos leitores, pedindo vênia para unir-me, assim, à indicação feita pelo Felipe. Só divirjo quanto ao cerne do livro: a meu aviso, ele retrata com perfeição a realidade dos países onde o socialismo deu certo até demais. E quando aquilo dá certo o resultado é sempre morte, miséria e terror.

5- Como você enxerga a consciência política, a cidadania e o civismo do cidadão brasileiro atualmente? Há avanço ou o contrário?

Não há avanço nenhum! As eleições de 2006 já mostraram isso. Se, mesmo depois de acompanhar o mensalão e o dossiê, os brasileiros reelegeram Lula, não se pode ter muita esperança. Aqui o voto ainda é decidido muito com base nos interesses estritamente egoístas. O pobre quer sua bolsa-esmola no fim do mês, o sujeito da classe média quer emprego para o irmão, enquanto o rico quer os juros altos das aplicações financeiras. Não vejo na sociedade brasileira a presença de imperativos morais categóricos, tão próprios do mundo civilizado. Por exemplo: critica-se Sarney com facilidade, mas a maioria admite que empregaria parentes e favoreceria amigos… Mais ainda: não se acha estranho que Sarneys, Renans, Collors e Lulas se agarrem ao poder mesmo depois de flagrados diante da bandalheira alucinada que temos acompanhado. No dito primeiro mundo, basta um escândalo pequeno para que a pressão pública leve o sujeito a renunciar. Por quê? Porque eles se guiam por imperativos éticos e morais que nós não temos. Até Obama, comprado pelo mundo como uma espécie de novo messias, já é abertamente questionado nos Estados Unidos. Isso não ocorre porque eles são preconceituosos, mas porque são esclarecidos. Sabem que há pressupostos básicos, corolários fundamentais, que precisam ser atendidos sempre. Possuem aquilo que chamo de “filtro moral”, que não aceita a bandalheira institucionalizada, como aceitamos aqui. Qual foi a defesa do PT diante do mensalão? “Todos são iguais”. E o povo comprou isso! Não se escandalizou, mas reelegeu os petistas envolvidos! Concluo que, mesmo passados mais de 500 anos, ainda não aprendemos a cobrir nossas vergonhas…

6- Você é fã de algum pensador político ou de algum personagem da política? Se sim, quem? Por quê?

Ah, são muitos. Lincoln, Churchill, Thatcher, Reagan e Persson, para citar alguns que atuaram como executivos. Há também os “hors concours”, como Aristóteles, Platão, Virgílio e Voltaire. Para lembrar de alguns que – como direi? - “pensaram a sociedade”, não poderia deixar de fora Giddens, Luther King, Mises e Rand. E, passando pelo Brasil, posso lembrar de Ruy Barbosa, Ulysses Guimarães e Mário Covas, este último uma das maiores perdas que a sociedade brasileira jamais experimentou. Não tivesse morrido, provavelmente seria o candidato do PSDB em 2002 e, creio, teria vencido. Que fatalidade…

7- Você pretende auxiliar de alguma forma a melhora da prática política nacional? Já tem em mente como?

Ora, claro que pretendo! Todos pretendemos, não? Ninguém em sã consciência pode se abster de contribuir para a melhora da política no Brasil e no mundo. O “como” faz parte de uma busca perene… Penso que todos devem se tornar, antes de qualquer coisa, pessoas melhores. Em seguida, concorrer para elevar e melhorar seus próprios núcleos familiares.

Meu ponto é: ninguém transforma o mundo em um lugar melhor, caso não consiga se transformar em algo melhor. Lembro-me de Ghandi: “A única revolução possível é aquela dentro de nós”. Trata-de, aliás, da condenação mais veemente a qualquer pensamento filomarxista. Lembro-me também de Ortega y Gasset: “Não haveria autoritarismo, não fosse pelas massas e suas rebeliões”. Perfeito! O ser humano precisa, assim, melhorar a si mesmo. A melhora do mundo vem como consequência disso.

Um sujeito viciado não pode dar à luz uma realidade plural boa. Por isso escarneço de Rousseau e seu mundo idílico, afinal, o homem abandonou os próprios filhos! Por isso não posso levar alguém como Marx a sério, já que se fazia sustentar por um amigo e cuidou de trair a esposa na primeira oportunidade que teve. Para que o mundo melhore, devemos deixar de lado essa megalomania “pogreçista” de “mudar tudo isso que tá aí” ou de construir o tal “outro mundo possível”. Devemos dar ouvidos a Ghandi, e cuidar de mudar a nós mesmos.

8- Se você tivesse que ouvir uma música só durante dias, qual seria ela?

Um música só durante dias? Que chato… Posso pelo menos mudar para uma “obra”? Se puder, vou de “As quatro estações”, de Vivaldi.

9- Faça uma análise da corrida presidencial de 2010: O que você entende que ocorrerá provavelmente?

Em resumo: o lulismo será varrido do mapa eleitoral. Ou, para dizer isso em termos que deixam os petistas ouriçados, “vamos nos livrar deles por uns vinte anos”. Mas que se note: digo que o lulismo perderá apenas eleitoralmente… Para que o o Brasil se limpe do estrago feito pelo PT, desaparelhando completamente o Estado, vamos ter que esperar gerações… E contar com muita sorte também!

Sendo um pouco mais específico, posso dizer que Serra é o grande favorito. Isso é questão de fato, não de gosto: o Governador de São Paulo vence em todas as faixas etárias e de renda, além de estar em primeiro no norte e no nordeste, dois redutos lulistas. Só um desastre tirará a vitória dele. E é aí que entra a aborrecida imprevisibilidade eleitoral brasileira… Lembro de uma frase dita por Bill Clinton, em 1992: “Nunca subestimem a capacidade que o meu partido tem de perder uma eleição”. Ela pode ser aplicada também ao PSDB, que já deveria ter vencido em 2006, mas preferiu jogar a oportunidade fora. Andou ensaiando algo parecido com essa guerrinha estúpida entre Serra e Aécio, mas, parece, se aprumou.

Dilma acabou! Se o país achou Alckmin antipático, o que não pensará diante da ex-terrorista e ex-sequestradora, que mente até mesmo sobre sua formação profissional? Anotem aí: a mulher já era! Não tem Lula no mundo capaz de levá-la à vitória final.

Ciro não me convence… Até o recente crescimento dele tem ares de déjà vu. Depois a campanha começa, o “marido da Flora” se estressa e cuida de minar as próprias chances, falando uma de suas grosserias típicas. Vejo Ciro como uma espécie de Collor dos anos 2000. É o “oligarquinha da mamãe”, falando em mudança, transformação, ruptura, ao mesmo tempo em que se senta em cima de uma herança coronelista. Patético!

Quanto a Marina… Ah, dá uma preguiça… A “Rainha dos povos da floresta” não vai levar. Querem fazer dela uma espécie de “Obama de chale”, mas o próprio Obama já acabou! A retórica salvacionista de Marina vai, sim, seduzir uma parcela dos tais “petistas históricos”, descontentes com Lula e Dilma. Vai também arregimentar parte dessa classe média engajada, que acredita na “Igreja do aquecimento global dos últimos dias”. E… só! Acho que ela nem chega no segundo turno – sempre que haja um.

10- Se você pudesse passar o conceito de apenas uma frase de efeito para seus filhos, que frase seria essa?

Já abusei tando da sua paciência – e da dos leitores – com minhas respostas longas, que peço para citar duas… Posso? Então vamos: “Todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus” (Romanos 8,28); e: “Não te deixes vencer pelo mal, mas triunfa do mal com o bem” (Romanos 12, 21).

6 comentários:

Silvia disse...

Conheci o blog recentemente, e achei muito bom encontrar opiniões como as suas. É raro ver alguém defender estes pontos de vista com tanta seriedade e presteza. Parabéns.

Lucas Torres disse...

Muito boa. Agora é uma entrevista por semana? Rs...

Tá ficando estrela...

Celso78 disse...

Sempre me surpreendo ao ler o blog, porque você nos presenteia com visões diferenciadas. Inovadoras mesmo.

Nunca havia lido aquela frase famosa de Ghandi como uma crítica aos chamados "regimes de massas". Mas é incrível como faz sentido!

O ser humano que não cuida de si mesmo, do seu caráter e da sua moral, não pode querer transformar o mundo.

Fábio disse...

Fala da bíblia pra cá, de São Paulo pra lá... Condena o aborto e, com ele, os direitos das mulheres a não sofrerem nas mãos de açougueiros.

E ainda vem dizer que não é da direita conservadora?! Porque esse medo em assumir? Você não reclama que falta direita no Brasil? Então, assume!

Uma dúvida: você anda com a bíblia por aí, debaixo do braço?

George disse...

Mesmo que ele andasse com a Bíblia debaixo do braço, ainda seria melhor do que carregar o manifesto comunista, né sujeito?

Catarina disse...

Aff. Esse Fábio não existe! Só pode ser um Troll, uma máquina de spans programada pela esquerdopatia petralha.

Obrigado, Yashá! Ainda bem que você deixa que alguns comentários assim passem. Isso nos diverte muito!

P.S.: Eu fico uns diazinhos fora do blog e perco mais uma entrevista?! Agora é uma por dia, é? Tá chique....