O menino Sean, segundo decisão do ministro Gilma Mendes, foi entregue ao pai, o americano David Goldman. A história toda, acreditem, é menos importante por seus aspectos jurídicos, do que por aqueles sócio-culturais.
A decisão de Mendes? Ora, cumpriu-se apenas a lei. Qual? Todas! Aquelas brasileiras, as americanas e até os postulados de direito internacional. Tudo foi brilhantemente prestigiado pelo presidente do STF, que está sendo criticado mais em razão do ódio que certo pogreçismo nutre contra ele, do que pelo mérito do ato decisório em si.
Só mesmo um país como este, que vive tempos obscuros e sombrios, poderia se surpreender com o cumprimento da lei. E qual é a argumentação desenrolada pelos entusiastas da manada? O de sempre: "E a voz das ruas? E o clamor popular?" Ora, eu quero mais é que o tal clamor vá pro diabo que o carregue! É esse tal clamor que responde, no mais das vezes, por algumas das piores atrocidades que o mundo já conheceu. Lembram de Ortega y Gasset? Cito-o aqui vez por outra: "Não haveria totalitarismo se não fossem as massas e suas revoluções."
"Ah, mas o menino disse que gostava daqui e que queria ficar!" É mesmo? Quando foi isso? Ah, claro! Foi quando ele estava na casa dos avós, em companhia deles. Ora, convenhamos: estranho seria se ele afirmasse o contrário, não é? Aliás, melhor: caso ele dissesse o contrário estaríamos diante de um caso de polícia! No mais, o garoto estava feliz e satisfeito com os avós, da mesma forma que ficou feliz e satisfeito ao lado do pai. É uma criança, santo Deus! Ele ficaria feliz e satisfeito ao lado de qualquer um que o ame e o trate bem.
O ponto central é que o império da lei e do Estado de direito está sendo visto como algo alarmante nessepaiz. Este, aliás, pode ser o principal - e mais deletério - legado do petismo - em particular - e do pogreçismo - em geral. Para essa turma, a "voz das ruas", o "clamor popular" têm sempre mais força do que o ordenamento jurídico. E por que as coisas são assim? Porque essa gente consegue aparelhar a chamada opinião pública, transformando-a em porta-voz de seus próprios interesses.
Ora, qual o resumo do "caso Sean"? 1) Mãe e pai se separam e aquela, brasileira, decide voltar ao Brasil, para junto de sua família, trazendo consigo o filho; 2) Depois de constituir novo casamento aqui, a mãe do menino morre e o deixa aos cuidados do padrasto e dos avós; 3) O pai, americano, decide fazer valer seus direitos e revindica o filho, o que acabou sendo negado, primeiro pela família e, em seguida, pela justiça. Se alguém conseguir diferenciar o roteiro acima do crime de cárcere privado, ganha o "prêmio anual de contorcionismo retórico".
A verdade é uma só: o garoto precisava ser entregue ao pai. Isso é o triunfo da lei. É o imperativo moral existente no caso. Qualquer outra solução diferente não passaria de mera trapaça jurídica.
E os aspectos sociológicos? Bem, não bastasse o que foi dito acima, ainda merece uma sincera reprovação o carnaval que os avós do garoto promoveram em torno do episódio. Entregá-lo ao pai, por exemplo, vestido no uniforme da seleção de futebol, afirmando que "ele sempre será brasileiro" não serve a nenhum propósito. Apenas inflama a - como direi? - "torcida". E quem falou que ele deixaria de sê-lo? Será possível que qualquer assunto nessepaiz precisa ser transformado numa espécie de luta de classes do país oprimido contra as potências estrangeiras? Quando a síndrome de vira-lata vai ser superada?
Sabem como os Estados Unidos noticiaram a contenda toda? Como uma disputa privada, de um pai em busca do filho. E só! O ministro de relações exteriores de lá, segundo consta, não meteu o dedo na questão - ao contrário do megalonanico (by Reinaldo Azevedo) Celso Amorim. Sabem por que é assim? Sim, eu sei que vocês sabem. Eu vivo repetindo aqui... É que eles são melhores que nós. E melhores em tudo!
Não se torturem, nacionalistas de esquina. O garoto Sean está em boas mãos. E está em um lugar decididamente melhor.
3 comentários:
Boa noite Yasha.... no seu artigo falta lembrar aos leitores a morosidade da justica brasileira nesse caso : 5 anos !! Alem disso, ja' que para alguns virou um "disputa" entre Brasil e USA, aconselharia a essas pessoas interessar-se mais nos casos infelizes que ainda perduram por aqui: refiro-me principalmente aos filhos(as) de brasileiras, aqui casadas com homens estrangeiros (na maioria do Oriente Medio..) que tiveram os seus filhos raptados pelos pais e nunca tiveram eles de volta.. mas esses casos humanos a nossa diplomacia nao interessam......
Abraco, Michele
Yasha, segundo a dialetica desse pessoal o pai poderia estar tbm nesse momento estar pleiteando pensao alimenticia da avo e do padrastro, que tal ? O absurdo nao tem limites afinal.
Muito boa a colocação feita pelo Miki. A chamada "opinião pública" está adorando vestir a camisa brasileira nessa disputa, nacionalizando uma causa de família. Por que não se insurgem contra os desmandos decorrentes do machismo islâmico, que afeta tantas mulheres brasileiras?
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