quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Lição de democracia vinda do Chile.

Depois de uma eleição bastante disputada, o conservador Sebastián Piñera se tornou o novo Presidente do Chile. Piñera teve pouco mais de 51% dos votos, contra cerca de 48% de Eduardo Frei, candidato do governo liderado por Michele Bachelet.

A vitória de Piñera coloca fim a 20 anos de domínio da aliança entre socialistas e democratas-cristãos no Chile, denominada Concertação. O grupo, formado depois de encerrada a ditadura de Augusto Pinochet, não conseguiu, a despeito da enorme popularidade da atual Presidente, se manter no poder. A mensagem dos chilenos foi clara: a aprovação de um governo não impede o desejo de mudança do eleitorado.

A América Latina pode aprender muito com o exemplo chileno, não sem motivo o "mais europeu de todos os países sulamericanos". A Concertação de Bachelet não partiu para o terrorismo eleitoral em nenhum momento, nem tentou subverter as regras do jogo democrático a fim de se favorecer. Em que pese duas décadas de trabalhos reconhecidamente frutíferos, a situação optou por preservar as instituições e o sistema de liberdades democráticas, deixando de lado qualquer tentação continuísta.

Piñera herdará um país nos trilhos virtuosos da democracia e da economia de mercado. Cumprirá ao novo Presidente a tarefa nada fácil de conduzir uma desejada mudança política, ao mesmo tempo em que será vital garantir - e aprofundar - as conquistas obtidas ao longo dos vinte anos de governo da Concertação.

A linha mais conservadora de Piñera não me preocupa em nada. Antes, penso que possa fazer realmente muito bem à América Latina, cujo único contraponto ao discurso macaqueiro do bolivarianismo era, até então, Álvaro Uribe. Piñera, uma vez eleito, cuidou de deixar claro que guarda divergências inconciliáveis com o governo de Hugo Chávez. Ainda bem! Divergir de Chávez é concordar com a democracia.

Piñera também disse que o Brasil pode seguir o caminho do Chile neste ano, elegendo um candidato da oposição a despeito da altíssima popularidade do Presidente atual. Neste particular, creio que o novo mandatário chileno está equivocado. Ele erra porque ignora uma premissa óbvia: não se pode nunca ser otimista demais com essepaiz...

Para começo de conversa, aqui não há um candidato como Piñera, isto é, um conservador. Aqui há uma infinidade de políticos disputando a tapas o título de mais pogreçista. Lembram de Sérgio Guerra, Presidente do PSDB? Segundo ele, os tucanos são a verdadeira esquerda brasileira... Em todo o mundo democrático, a direita tem candidatos e disputa o poder. No Brasil, não. Isso não é nada bom, afinal a história virtuosa da democracia é a história do confronto de ideias, do debate e da argumentação. Aqui, ganha mais pontos o discurso ufanista da "unidade nacional", da "convergência de interesses", ou, para ser mais específico, do "pós-Lula".

Quem renuncia ao confronto democrático, renuncia à democracia em essência. O Brasil não é o Chile. Do ponto de vista do assento institucional, estamos muito mais para uma nova Venezuela.

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