quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Campanha da Fraternidade.

Ontem, durante a missa da quarta-feira de cinzas, marco inicial da Quaresma, fui oficialmente apresentado à Campanha da Fraternidade 2010. A tal iniciativa, que desde sempre encarnou as bandeiras mais conhecidas do consenso progressista e politicamente correto, vai "brindar" os católicos com um dos temas mais propícios à demagogia rasteira.

Nem vou comentar a miopia econômica e histórica de todos aqueles que escolheram falar sobre os males do capitalismo e da crise econômica mundial dentro da casa de Deus. Como todos sabemos, o tema da Campanha da Fraternidade é sempre decidido com muita antecedência, razão por que acaba, algumas vezes, tropeçando no desenrolar dos próprios acontecimentos. Quando decidiram que era hora de fazer apologia do estatismo nas igrejas, o mundo ainda estava assustado com a última grande crise. Hoje, com o ambiente em franca recuperação - o capitalismo sobreviveu, para tristeza de muitos... -, o tema escolhido para a Campanha da Fraternidade deste ano já está obsoleto.

Em outras palavras, poderia dizer que "o capitalismo traz dentro de si o germe de sua própria... salvação", como não falou Karl Marx, o humanista que pretendia revolucionar o mundo, mas não achava importante cuidar dos próprios filhos...

"Mas discutir as falhas de um modelo econômico é sempre importante.", poderá argumentar alguém. Ora, claro que é. Mas há que se indagar: a discussão será séria, acadêmica e intelectualmente honesta? Ou apenas pretexto para fazer proselitismo pseudomarxista durante as homilias? Estou exagerando? Ah, que nada! Não subestimem a capacidade que a tal "ala progressista da Igreja Católica" tem de ficar remoendo as teses soterradas sob os escombros do muro de Berlim...

Achei no site da CNBB a fala de um tal pastor Carlos Möller, presidente de um negócio esquisito batizado de "Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil". Disse o sujeito:
"Precisamos ter a coragem de afirmar que o sistema econômico atual é imoral e insuficiente" (...) "A Campanha da Fraternidade deve nos fazer ousados para rever os conceitos econômicos que imperam no mundo e no nosso país" (...)

Nem vou perder tempo perguntando o que diabos o sujeito fazia em um evento próprio da Igreja Católica. Isso seria - como é mesmo? - "conservadorismo", não é? Prefiro me deter sobre as teses econômicas dele: o que define a "moralidade" de um sistema econômico?

Ora, não pensem que sou estúpido a ponto de negar as mazelas do capitalismo. Pelo contrário: acho que o sistema atual deve melhorar e muito, pois ainda não se conseguiu equalizar à perfeição a liberdade própria da democracia, e os benefícios econômicos próprios do capitalismo. Isso ainda pode ser melhorado, é claro. O problema surge quando se flerta com teses ultrapassadas e - o que é mais grave - sanguinárias.

Qual é a alternativa que eles sugerem para "moralizar" o sistema? Basicamente, melhorar a tal distribuição de renda. Como? Fortalecendo o controle do Estado sobre a economia. Pois é... Dá uma preguiça, né? Desnecessário dizer que os exemplos concretos desse ideário não são nada animadores... Aliás, não! É preciso dizer, sim! E repetir infinitas vezes, afinal tem gente que parece não entender aquilo que é evidente. Ao longo da história, sempre que o Estado subjugou a população produtiva por meio de impostos supostamente destinados à redistribuição de renda, o resultado final foi o colapso econômica da população. Começando sempre pela mais pobre. Isso não é matéria de opinião ou de ideologia, mas de fato. E desafio qualquer um que divirja disso e me provar, com fatos, o contrário.

E que se note: nem estou entrando no mérito da grotesca imoralidade que as tais "alternativas ao capitalismo" produziram no campo humano e político... Não é sem motivo que o gigantismo do Estado sempre desaguou em totalitarismo e em violência social... Mas, como disse, nem vou tocar nesse assunto. Estou bonzinho hoje...

Não, meus caros! Em matéria de reflexão para a Quaresma eu dispenso, com todas as vênias de estilo, o que o pastor Carlos Möller - e sua turma - tem a me dizer. Em vez dele, prefiro ouvir as palavras do Santo Padre, o Papa Bento XVI. Afinal, vocês sabem: sou um conservadorcaretaereacionário, não é mesmo? Disse o sucessor de Pedro:

(...) Aquilo de que o homem mais precisa não lhe pode ser garantido por lei. Para gozar de uma existência em plenitude, precisa de algo mais intimo que lhe pode ser concedido somente gratuitamente: poderíamos dizer que o homem vive daquele amor que só Deus lhe pode comunicar, tendo-o criado á sua imagem e semelhança. (...) a justiça distributiva não restitui ao ser humano todo o “suo” que lhe é devido.
(...) O anuncio cristão responde positivamente à sede de justiça do homem, como afirma o apóstolo Paulo na Carta aos Romanos: “Mas agora, é sem a lei que está manifestada a justiça de Deus… mediante a fé em Jesus Cristo, para todos os crentes. De facto não há distinção, porque todos pecaram e estão privados da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente pela Sua graça, por meio da redenção que se realiza em Jesus Cristo, que Deus apresentou como vitima de propiciação pelo Seu próprio sangue, mediante a fé” (3,21-25)
Qual é portanto a justiça de Cristo? É antes de mais a justiça que vem da graça, onde não é o homem que repara, que cura si mesmo e os outros. (...)

Notaram a diferença? Um fez panfletagem partidária - da pior categoria. O outro fez teologia e, ao mesmo tempo, sociologia política. Agora é questão de escolher sobre qual argumento meditar durante a Quaresma. Eu já escolhi.

2 comentários:

Germano disse...

Não é sem motivo que um se tornou Papa, o sucessor de Pedro, enquanto o outro se tornou presidente de uma birosca.

Mauro disse...

Todo ano é a mesma coisa. Politicagem barata na casa de Deus. Aparelham qualquer coisa mesmo, desde os livros didáticos até as homilias.