quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Sobre extremismos.

Escrevi outro dia um texto sobre uma descoberta científica que tem o condão de mudar o debate em torno daquilo que se convencionou chamar de "boa morte".

No texto, saudei com entusiasmo mais esse progresso científico. Acreditem: fico emocionado quando a ciência - e a inteligência como um todo - são usadas para dignificar a vida, em vez de servirem de arrimo para os que pretendem colocar um fim a ela. Afinal, parece muito mais lógico ver cientistas tentando recuperar a plenitude de uma vida, ao invés de praticarem contorcionismos mentais no afã de justificar um assassinato puro e simples.

Como não poderia deixar de ser, o texto em questão deixou os iluminados do pogreçismo ouriçados. Vocês sabem como funcionam esses "tolerantes", não? É só aparecer uma idéia contrária, e pronto: rapidamente o exército deles se prepara para cercear o debate. Como? Do mesmo jeito que sempre agem: atacando o mensageiro.

Um dos comentários que recebi foi redigido mais ou menos assim - deixo de fora a parte dedicada apenas a ofender este escriba:

Você gosta de se dizer católico, mas não exercita a tolerância. A mensagem da igreja é de união, de composição, de entendimento. O extremismo que você demonstra, sempre restringindo as coisas a "SIM" e a "NÃO", deprezando qualquer saída moderada e qualquer meio-termo, não condiz com a tradição pacífica e humanitária do catolicismo nem da democracia. Você deveria ser mais pacífico. Deveria deixa de lado essa coisa maniqueísta de "SIM" e "NÃO", prestando mais atenção ao que é moderado. Defender a dignidade de uma vida, algumas vezes, pode significar oferecer uma morte digna e boa. E pensar isso não torna ninguém assassino. Mais moderação no futuro.

Adoro quando esses modernos humanistas têm a bondade de gastar um pouco do seu precioso tempo para vir até aqui, dar-me algumas lições de conduta. Não é lindo? Vê-los dizer "você deveria" isso, "você não deveria" aquilo é fascinante. São almas pias, caridosas mesmo. Não se contentam em ser bondosos e iluminados em sua própria individualidade. Sentem a necessidade de espalhar a "iluminação" pelo mundo. Sua doutrina "humanista e boa" fica parecendo, pois, um vírus. Eu, de minha parte, não me ocupo de espalhar por aí meu "obscurantismo". Fico contente em defender a vida humana sozinho, aqui no meu canto.

Ele diz que eu gosto de reduzir as coisas a "sins" e "nãos". Que simplifico demais, rejeitando - como é mesmo? - "moderação e meio-termo". E ele acertou na mosca! Sabem quando fui chamado de reacionário e de conservador pela primeira vez? Quando chamei terrorista de terrorista, bandido de bandido e assassino de assassino. Aqui, meus caros, é assim. Não temos duas morais. Aqui, terrorista não é "militante do outro mundo possível", mas apenas um bandido perigoso. Simples assim.

Segundo o sujeito, esse meu radicalismo estaria distante da mensagem de Igreja católica. Será mesmo? Será que Jesus se notabilizou por sua moderação? Ou por seu radicalismo? Ele procurou tecer acordos com os fariseus e com César, para continuar livremente sua pregação? Ou limitou-se a explicar que seu reino não era deste mundo?

Quando um falso crente vem me esfregar as escrituras na cara, eu respondo esfregando as escrituras na cara dele. O sujeito invocou o Filho do Homem sem sequer saber de quem se trata! É Hasmodeu tentando citar o Pai! É, enfim, ultrajante!

Em Mateus, capítulo 5, versículo 37, lemos que Jesus disse o seguinte: "Dizei somente: Sim, se é sim; não, se é não. Tudo o que passa além disto vem do Maligno."

Entendeu, meu caro? Pode não parecer, mas é muito simples possuir uma só ética, uma só moral. Quando algo é bom, dizemos que é bom. Se é mau, dizemos que é mau. Se é sim, dizemos sim. Se é não, dizemos não. As tergiversações que surgem além disso são apenas pantomimas trapaceiras, destinadas a confundir a verdade e o bom senso. E quem se notabilizou nas escrituras por confundir o homem justo? Sim, ele mesmo: o demônio!

Viu? No mais das vezes, ser radical implica seguir a mensagem cristã. A confusão excessiva, meus caros, pode indicar um flerte com o maligno, não um sinal de sabedoria e maturidade. Mesmo porque - e isso me parece absurdamente lógico - uma pessoa madura sabe que sim é sim e que não é não. E não precisa recorrer a meios-termos e moderações.

Para encerrar, posso lembrar que Jesus não foi nada moderado quando se tratou de defender a vida humana. Pelo contrário: oferecer a si mesmo em sacrifício parece algo bastante radical, não? É preciso muito cuidado antes de professar esse suposto "moderadismo" de Jesus... Fosse ele moderado, teria mesmo feito aliança com Judas, como chegou a sugerir certo presidente operário e iletrado. Aliás, não deixa de ser curioso notar que, em tal aspecto, o radicalismo faz "um Jesus", ao passo que a moderação faz "um Lula" e "um Sarney", prontos a se render aos mais íntimos convescotes...

Enfim, tristes tempos estes... Hoje, essa "vontade esquisita" de defender a vida só pode ser compreendida em círculos obscuros, reacionários e conservadores, como o noso... Lá no mundo "iluminado" do pogreçismo, lá no seio do humanismo assassino - que defende o aborto e a eutanásia -, não há espaço para coisas dessa natureza.

6 comentários:

Filipe Calvario disse...

Sou a favor da eutanásia em alguns casos, e não me considero de um "humanismo assassino". Neste caso, por exemplo, onde uma pessoa em estado vegetativo está presa a um corpo inerte, por meses, anos; levemente consciente, mas sem poder falar ou se comunicar normalmente: imagine que situação horrível!! Tremendamente pior que ficar em prisão solitária por anos (e olha que umas duas semanas levam um à loucura).

Talvez você desejasse exercer o seu direito à vida num caso semelhante, devido ao seu credo, ou convicção pessoal. Respeito isso (embora ache que após o primeiro dia em tal estado você se arrependeria); é um DIREITO seu. Mas, embora minhas noções de Direito sejam pequenas, penso haver uma diferença fundamental entre direito e dever. Talvez haja uma noção de "dever de viver" em alguma ideologia, mas não parece que ela exista em nossa Constituição. E se existe, deve acabar.

Eu, particularmente, tenho certeza: numa situação semelhante, desejaria a morte mais que tudo. Se você desejaria viver, tudo bem (mas pense bem, hein...). Mas eu quero, uma vez que tenha avisado à minha família disso, poder dar um fim a um sofrimento desses. Alguém que me negue isso numa situação semelhante, seria, na minha visão, um monstro.

Yashá Gallazzi disse...

Filipe, estou certo de que você não é o único.

Perceba: está claro no texto que não me dirijo individualmente a esta ou àquela pessoa. Os indivíduos que aceitam a eutanásia fazem escolhas morais próprias, e devem arcar com o peso delas peranse suas próprias consciências. Não sou juiz de nenhum homem, meu caro.

Meu texto é uma crítica genérica ao "lobby do assassinato". O "humanismo assassino" que mencionei existe, ainda que nem toda pessoas favorável à eutanásia faça parte dele.

Eu entendo que você, indivíduo, prefira morrer do que ficar "preso" a um corpo. Entendo, mas não aceito. E eu, amparado pela minha liberdade, não desligaria seus aparelhos. Isso não o impede de encontrar quem o faça...

O que não entendo é como organizações, movimentos e inteiras estruturas burocráticas podem ser erguidas em nome da defesa da morte. O que leva grupos de pessoas e ONG's a brandir cartazes nas ruas pedindo o fim de uma vida? A quem essas pessoas respondem em suas consciências?

Terry Schiavo supostamente teria dito ao marido que preferia morrer. Morreu, pois encontrou quem desligasse seus aparelhos. Isso não impediu que os pais dela tentassem evitar o fim. Se o tal direito de morrer deve ser exercido em nome da liberdade, por que o direito de lutar pela vida não pode sê-lo?

Filipe Calvario disse...

Bom, não estou a par do "lobby do assassinato"; não sei o que ele defende. Se o que ele defende é que pessoas nesse caso que tenham a mesma vontade que a minha tenham direito a uma "boa morte", ora, isso é corretíssimo. É a luta pelos direitos INDIVIDUAIS.

Veja: respeito que você desejaria viver, mas eu com certeza não desejaria. Então lutaria para que, vindo a cair nessa situação, tenha direito a fazer minha vontade (a minha vontade desesperada!) ser cumprida. Veja que no caso de Schiavo, houve grande oposição a que o desejo dela seja cumprido. Em nome de quê? Da liberdade? Não, meu caro. Não quero que, em tal situação, alguma pessoa pró-vida venha lutar em defesa da... MINHA VIDA! Lute pela sua, ora, não venha me prejudicar!

Aliás, esse negócio de ortotanásia é uma brincadeira. É fazer a pessoa morrer, de certa forma, de fome, em vez de dar uma morte indolor e rápida. É outra coisa que eu gostaria de ter direito. E, certamente, haverá gente disposta a aplicar a tal injeção final.

Mauro disse...

É sem sombra de dúvidas um dos melhores textos que já li aqui. Vai direto pro HD!

Catarina disse...

Adorei o texto e também a argumentação de alto nível que partiu do Filipe. Muita gente das trevas deveria aprender que é possível discordar civilizadamente.

Lucas Torres disse...

"Quando um falso crente vem me esfregar as escrituras na cara, eu respondo esfregando as escrituras na cara dele."

-- PERFECT!!!

"O sujeito invocou o Filho do Homem sem sequer saber de quem se trata! É Hasmodeu tentando citar o Pai!"

-- FATALLITY!!!

Acabou com o cara!