terça-feira, 30 de março de 2010

Eleições regionais italianas: Vitória de extremos.

Abaixo um texto mais longo que o habitual, mas creio que o motivo justifique o fato.
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No último domingo, os italianos foram às urnas para as eleições regionais, que apontaram os governadores das 13 regiões da "velha bota". Ou, melhor dizendo, apenas dois terços dos italianos compareceram aos locais de votação, o que proporcionou uma abstenção recorde, que ilustra com perfeição o momento de crise generalizada da política e dos políticos da Itália, incapazes de passar confiança para o eleitor.

VITÓRIA DA DIREITA RADICAL.
O partido verdadeiramente vitorioso nessas eleições regionais italianas foi a Lega Nord, uma agremiação identificada com a extrema-direita, de caráter separatista e anti-imigração. O partido comandado por Umberto Bossi elegeu os governadores de Veneto e Piemonte, além de ter contribuído diretamente para a eleição do governador da Lombardia - filiado ao PDL, de Silvio Berlusconi.

Com o resultado obtido nas urnas, a Lega se torna o terceiro maior partido da Itália (12% dos votos) e a maior força política da região norte do país, algo que carrega uma enorme importância, principalmente se considerarmos que os três estados nortistas são o motor produtivo da Itália. É como se um único partido governasse, no Brasil, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais ao mesmo tempo.

Se forem considerados apenas os dados da região norte, o sucesso da Lega é ainda mais expressivo: No Piemonte, o partido de Bossi recebeu 16% dos votos, contra 24% conferidos ao PDL de Berlusconi (na eleição passada, os números eram 15% e 32%, respectivamente); na Lombardia, a Lega conseguiu se igualar aos aliados de centro-direita, conquistando 26% dos votos (na última eleição havia recebido 22%, contra 33% conferidos ao PDL); por fim, no Veneto, a Lega é o partido que dita as regras. Naquele estado, a agremiação de Bossi contou com 34%, dez pontos a mais que o PDL (na eleição passada, ambos estavam empatados).

Além disso, há que se registrar os resultados positivos obtidos pela turma de Bossi em outras regiões da Itália, onde, até então, o discurso bairrista da Lega não costumava encontrar eco. Agora, os direitistas recolheram cerca de 8% dos votos em estados do centro e do sul da Itália, capitalizando o sentimento de protesto com os partidos tradicionais.

RESULTADO DISCRETO DOS DOIS PRINCIPAIS PARTIDOS.
Os dois principais partidos italianos - Popolo della Libertà (PDL) e Partito Democratico (PD) - não podem comemorar, individualmente, grandes triunfos. O PDL, agremiação de centro-direita comandada por Berlusconi, tem o cenário mais positivo diante de si, pois conseguiu ampliar o número de estados governados. Isso, aliado ao triunfo da Lega, seu principal aliado, faz com que a coalizão de governo da Itália saia vitoriosa do pleito - como reconhecido, inclusive, pela própria oposição de centro-esquerda.

Se os resultados coletivos são bons para o governo Berlusconi, há que se convir que o resultado individual de cada partido deve deixar o Premiê preocupado. O PDL, que nas eleições de 2008 recebeu 36% dos votos, contabilizou, neste ano de 2010, 26%. Uma redução de dez pontos! Diante de algo assim, o sinal de alarme só não dispara porque, como dito, a vitória da coalizão - muito graças à Lega, repise-se - acaba se transformando em um voto de confiança em Berlusconi.

Obviamente que a honestidade intelectual obriga a lembrar que o partido do Premiê foi proibido de concorrer no estado do Lazio, em razão de irregularidades jurídicas. Tivesse participado do pleito normalmente, o PDL poderia contar com cerca de 29% dos votos nacionais, um resultado melhor que o efetivamente obtido, mas, ainda assim, muito aquém dos 36% de dois anos atrás.

Já o Partito Democratico (PD), por sua vez, ficou praticamente empatado com o PDL, recebendo pouco menos de 26% dos votos. A oposição de centro-esquerda se confirma, assim, como segunda maior força do país, apesar de ainda estar muito abaixo dos 33% recebidos nas eleições gerais de 2008.

Olhando apenas os resultados numéricos, o PD poderia estar comemorando o resultados das urnas, afinal está praticamente empatado com o maior adversário, de quem chegou a estar dez pontos atrás nas pesquisas eleitorais. A verdade, porém, é bem diferente: a esquerda perdeu de forma avassaladora na região norte, além de ter sofrido derrotas expressivas no sul. Na prática, a oposição a Berlusconi ecnontra-se entrincheirada no centro da Itália, região historicamente pendente para a esquerda - conhecida como "zona rossa". Traçando outro paralelo com o Brasil, seria como se um partido vencesse nos estados do norte e do nordeste, mas perdesse de muito no centro-sul. Não haveria o que comemorar...

A EXTREMA-ESQUERDA, ANIQUILADA, É SUBSTITUÍDA PELA "ANTIPOLÍTICA".
Se no chamado "pólo conservador" vemos um crescimento da direita radical, no dito "pólo progressista" há um fenômeno diferente: a extrema-esquerda está sendo assassinada pelos eleitores da Itália.

Desde as eleições gerais de 2008, as agremiações ligadas aos chamados "partidos históricos" da esquerda - leia-se socialistas e comunistas - não está conseguindo seduzir o eleitorado italiano. As eleições regionais deste 2010 confirmaram essa tendência, registrando derrotas inapeláveis de todas as listas encabeçadas por partidos oriundos dos antigos socialistas e comunistas.

O caso mais marcante aconteceu no estado do Lazio, que engloba a cidade de Roma, capital do país. Lá, onde a força da esquerda vinha sendo sempre maior que a da direita, a coalizão liderada por Emma Bonino, uma comunista radical, foi derrotada por uma lista independente, apoiada pelo PDL de Berlusconi. Renata Polverini, cuja lista só teve chances na disputa a partir da exclusão do partido do Premiê, acabou atraindo todo o eleitorado moderado e conservador, que viu nela a única alternativa para derrotar a líder comunista. E a mobilização deu certo, com uma vitória final por menos de 1% dos votos. O recado dos italianos, mais uma vez, foi claro: a agenda socialista e comunista não tem mais vez.

Mas se a centro-esquerda (PD) e a esquerda radical (socialistas e comunistas) perderam, para onde foram os votos do "campo progressista"? Bem, alguns podem ter "ficado em casa", contribuindo para a elevada abstenção que mencionei ao início. Mas há uma outra explicação até mais provável: a esquerda radical está sendo substituída pelos movimentos da "antipolítica". Vejamos alguns dados:

O segundo maior partido da oposição italiana - quarto do país -, chamado Italia dei Valori (IDV), terminou estas eleições com cerca de 7% dos votos nacionais, consolidando um crescimento importante. Tal agremiação, capitaneada por Antonio Di Pietro, um ex-magistrado que atuou na "Operação mãos limpas", vem se destacando pelo discurso aguerrido e extremista, negando a direita liderada por Berlusconi, mas também batendo reiteradamente de frente com a centro-esquerda moderada (PD).

Mais radical ainda, o Movimento 5 stelle (M5S), liderado pelo comediante Beppe Grillo, terminou com cerca de 2% dos votos nacionais, um número que pode, à primeira vista, parecer pequeno. Mas seria um erro subestimá-lo: a lista de Grillo concorreu apenas am alguns estados e, apesar disso, foi mais votada do que muitos partidos tradicionais italianos, alguns dos quais presentes em todas as disputas. Para que se tenha uma ideia, o M5S recebeu mais de 7% dos votos no estado do Piemonte, concorrendo diretamente para a derrota do candidato da centro-esquerda moderada, apoiado pelo PD. Grillo, ainda mais "antipolítico" do que Di Pietro, adota um discurso muito parecido com o do PSTU - sem o ranço ideológico que caracteriza o brasileiro: prega a mudança de "tudo isso que tá aí", alegando que todos "são farinha do mesmo saco".

ENCERRANDO, ALGUMAS CONSIDERAÇÕES.
Aproximando-me da conclusão, teço apenas algumas considerações sobre os movimentos do eleitorado italiano.

PDL e PD são, e continuarão sendo por um bom tempo, os dois principais partidos da Itália, delimitando os campos ideológicos da direita e da esquerda. O dato relevante - e preocupante - é que ambos estão sendo corroídos pelos partidos mais extremistas que orbitam ao redor desse bipartidarismo de fato que há na Itália.

Por um lado, o PDL de Berlusconi vê a Lega Nord se tornar, eleição após eleição, dona dos votos da direita mais radical e sectária, o que obriga o Premiê a se deslocar sempre mais para o centro, em busca do voto moderado, a fim de tentar compensar as perdas eleitorais.

De outra parte, o PD não vai conseguindo seduzir o eleitor moderado, mesmo tendo se livrado, oficialmente, dos partidos da esquerda radical. Isso pode ser explicado porque, na prática, a influência de políticos oriundos dos antigos partidos socialistas e comunistas ainda é muito grande dentro da centro-esquerda, o que acaba por impedir uma verdadeira renovação dos quadros. O atual líder do PD, Luigi Bersani, é um ex-integrante do Partido Socialista, que acabou restaurando algumas "bandeiras históricas" do movimento. Fácil entender por que a parte moderada e reformista do eleitorado custe a depositar seu voto na centro-esquerda italiana...

Não bastasse isso, os pequenos partidos mais radicais, como IDV e M5S, ao adotarem um discurso de frontal oposição a Berlusconi, acabaram, como dito, por capitalizar parte dos votos vindos dos setores mais radicais da esquerda italiana. Resta ao PD um beco sem saída: ao se negar a abandonar, de uma vez por todas, o radicalismo socialista/comunista, o partido perde o voto moderado; na mesma esteira, apesar de flertar abertamente com expoentes vindos da esquerda radical, o partido não consegue convencer os eleitores extremistas de sua veracidade, razão por que os sectários continuam crescendo ao seu redor.

Diferentemente de alguns analistas políticos ouvidos pelos jornais italianos, não penso que os partidos mais radicais - como LegaIDV - poderão chegar ao poder na Itália. A leitura que faço dos número é simples: o eleitor moderado, que é a maioria, está ficando em casa, descrente que está da política atual. Aquele partido que souber, da melhor forma, conquistar esse eleitor, poderá crescer de forma considerável e chegar ao poder. Os dois maiores (PDL e PD) não estão sabendo fazer isso. Os extremistas e sectários - à esquerda e à direita - não querem fazer isso, pois precisam ser radicais para manter sua base tradicional.

O recado das urnas me parece bastante simples: o eleitorado italiano é majoritariamente conservador (na moral) e moderado (no campo político). Qualquer partido caracterizado pelo extremismo poderá experimentar sucessos localizados e periódicos, mas dificilmente conseguirá galvanizar os votos necessários para chegar ao governo. É preciso que forças novas, apartadas das heranças carcomidas da direita e da esquerda, restaurem o discurso reformista e moderado. Só assim a Itália poderá experimentar um governo voltado para uma agenda de trabalho efetivamente prática.

Mas isso é um discurso para o futuro. Mais precisamente, para o "pós-Berlusconi". Enquanto Il Cavaliere estiver em campo, usando seu carisma - e seu poder midiático - para manter unida a coalizão de direita, dificilmente a política italiana terá outro desenho.

2 comentários:

O buchudo disse...

Gostei do nome "velha bota", acho que vou usar eu mesmo.

Mas vou precisar que na Italia nao è como no Brasil. Os governadores das provincias (nao estado) nao tem a mesma autonomia e poder do governador do estado brasiliero.

Rm Brasil o mesmo partido que manda em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais seria mai forte que o mesmo governo Federal.

Na Italia governar em Piemonte, Veneto e Lombardia nao tem o mesmo valor, è so una valor politico.

Alem disso, o partido de esquerda, que tiveram a minha confiança muitos anos atras, vai perdendo votos porque pensam so a brigar entre eles, sem propor nada para o povo. E o povo (aquele que tem uma propria inteligenza) ve isso, a sabe onde votar.

(desculpe o meu portugues, faço o que posso)

Giancarlo

http://www.mostachetti.net
http://mondojean.blogspot.com/

Yashá Gallazzi disse...

Olá!

Claro que a Itália é bem diferente do Brasil. Procurei associar as regiões de lá aos nossos estados apenas para facilitar o entendimento do leitor.

Só discordo de sua avaliação quanto a governar Veneto, Lombardia e Piemonte: isso traz uma importância política muito grande. O peso da Lega na aliança de governo, por exemplo, se torna muito maior.

Vou além: se eles conseguirem ampliar seu arco de propostas, saindo daquele maniqueísmo atrasado que opõe norte a sul, podem crescer ainda mais, tornando-se uma força nacional. Não que eu ache isso bom, mas...

Um abraço e volte sempre.