quinta-feira, 22 de abril de 2010

#Partiu.

Este escriba, como todos bem sabem, não passa de um "porco direitista, conservador, reacionário e capitalista". É exatamente por isso que na minha casa damos tanto valor a coisas pequeno-burguesas como férias.

Vocês sabem, né? Aproveitar as belezas da Europa com a altivez que só azelite tem. Isso enquanto, nessepaiz, ozoprimido seguem sendo flagelados pelo sistema opressor da economia de mercado, moldado pela exploração do homem pelo homem...

O blog, é desnecessário dizer, vai ficar muito - muito mesmo! - devagar. Ainda mais devagar, aliás... Sim, eu sei que ando em falta com os leitores tradicionais e assíduos. A coisa não vai melhorar nas férias...

Apesar disso, espero conseguir passar por aqui algumas vezes, para dividir com vocês algumas coisas fascinantes que só o mundo civilizado produz. E, além disso, estarei mais frequentemente no Twitter (@yashagallazzi), que é muito mais dinâmico e fácil de atualizar.

That is that.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Preparem-se para a nova teoria da conspiração do PT.

Leiam o que vai abaixo, publicado na Folha Online. E tentem não rir.

O responsável por coordenar a campanha de Dilma Rousseff (PT) na internet, Marcelo Branco, disse hoje pela manhã em seu Twitter que o jingle de comemoração dos 45 anos da TV Globo embute, de forma disfarçada, propaganda pró-José Serra (PSDB).
"Eu e toda a rede", escreveu Branco em resposta ao comentário de que estaria enxergando na peça mensagem subliminar de apoio ao tucano.
De acordo com Branco, que corrobora tese difundida em sites de apoio ao PT, a mensagem estaria embutida no "45", o número do PSDB, e em frases do jingle como "todos queremos mais", o que seria, de acordo com os petistas, referência ao slogan "o Brasil pode mais" dito por Serra no lançamento de sua pré-candidatura.
Desde a noite de ontem, a Globo passou a veicular campanha em que atores, jornalistas e apresentadores da emissora comemoram os 45 anos em que a TV está no ar, data a ser completada na próxima segunda feira. O vídeo pode ser visto aqui
Em determinado trecho da peça, os atores falam: "Todos queremos mais. Educação, saúde e, claro, amor e paz. Brasil? Muito mais."
A reportagem procurou a assessoria da Globo para comentar as declarações de Branco, mas o ramal da emissora não atendeu por volta das 12h30.

O ridículo dessa gentalha não conhece qualquer limite...

Qual seria, pois, a solução? Talvez o tal Marcelo Branco ache que seja mais conveniente comemorar os 45 anos da Globo em 2011, não neste 2010...

Informações de bastidores dão conta de que o próximo passo da campanha de Dilma é ajuizar uma ação contra Jesus Cristo, afinal ele nasceu dia 25, e isso acaba fazendo propaganda em favor do Democratas...

Papa critica sincretismo religioso no Brasil.

Do Estadão Online. Volto em seguida.

Em um sinal de sua preocupação em relação aos rumos do catolicismo no Brasil, o papa Bento XVI criticou o sincretismo na religião no País e pediu que os bispos brasileiros rejeitem "fantasias" na eucaristia. O pontífice deu o recado durante o encontro que teve nesta quinta-feira, 15, no Vaticano com 15 bispos da região norte do Brasil.
Bento XVI alertou que "o culto não pode nascer de nossa fantasia", já que "a verdadeira liturgia pressupõe que Deus responda e nos mostre como podemos adorá-lo". A mensagem foi clara: a Igreja não aceitará o sincretismo, nem mesmo em regiões distantes e onde a cultura local seja predominante. O papa pediu respeito pela centralidade de Jesus na celebração da missa.
Bento XVI insistiu que estava preocupado "por tudo o que possa ofuscar o ponto mais original da fé católica" e advertiu para os riscos do sincretismo. O Vaticano rejeita que sejam introduzidos ritos tomados de outras religiões ou particularismo culturais na celebração das missas.
Durante sua viagem pelo Brasil, em 2007, o papa chegou a irritar grupos indígenas ao dizer que nenhum habitante que vivia na região antes da chegada dos europeus se converteu ao cristianismo pela força.
Agora, o papa alertou aos bispos brasileiros que os desvios poderiam estar sendo motivado por uma mentalidade "incapaz de aceitar a possibilidade de uma verdadeira intervenção divina". Para ele, a eucaristia é um "dom demasiado grande para suportar ambiguidade e reduções."
Para o papa, o suposto descuido com o culto mostraria uma comunidade que precisaria rever suas práticas. "Quando na Santa Missa não aparece a figura de Jesus como elemento preeminente, mas uma comunidade atarefada em muitas coisas", se produz um "escurecimento do significado cristão do sacramento", afirmou o papa.
Para ele, a "a atitude primária e essencial do fiel cristão que participa na celebração litúrgica não é fazer, mas escutar, abrir-se, receber. É óbvio que, neste caso, receber não significa ficar passivo ou desinteressar-se do que lá acontece, mas cooperar."
Bento XVI ainda mandou seu recado aos bispos brasileiros, indicando que não seria o sincretismo que os marcaria. "Que ele (Jesus) seja verdadeiramente o coração do Brasil, de onde venha a força para todos homens e mulheres brasileiros se reconhecerem e ajudarem como irmãos", completou.

Comento:
Isso quer dizer que coisas estranhas ao catolicismo, como a tal "missa dos quilombos", simplesmente não podem continuar sendo realizadas.

Já é hora da igreja brasileira recuperar a compostura há muito perdida.

terça-feira, 13 de abril de 2010

O Amapá é a ilha de Lost.

Sabem aquele sentimento de "inveja boa" que dá quando nos deparamos com algo realmente extraordinário? Pois é, eu queria ter escrito esse texto reproduzido aí ao lado. O Amapá nunca foi tão bem retratado em toda a sua história.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Presidente da OAB critica juiz que faz do tribunal o seu "reinado".

Leiam o que vai abaixo, publicado no site da OAB:

O presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Ophir Cavalcante, saudou a decisão unânime tomada hoje (06) pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), de instaurar processo administrativo disciplinar para apurar graves indícios de infrações disciplinares cometidas pelo presidente do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) do Amazonas, desembargador Ari Moutinho da Costa. Moutinho também foi afastado de suas funções jurisdicionais tanto no Tribunal de Justiça do Amazonas quanto no TRE-AM. "Fiquei estarrecido diante do relato feito pelo ministro Gilson Dipp - relator do caso -, da postura do presidente do TRE. É daqueles casos típicos em que o presidente de um tribunal faz do Poder Judiciário seu verdadeiro reinado", afirmou Ophir ao participar da sessão plenária do CNJ.
(...) Para Ophir, as condutas do desembargador indicam que ele se sentia dono do Tribunal, tendo agido com o coração na hora de influenciar na contratação de seus filhos, e não com base na postura que se espera de um magistrado. "Esse momento, o de afastar um magistrado, é lamentável e difícil. No entanto, devemos saudar o CNJ, que demonstra, uma vez mais, o caminho correto a ser seguido pelos juízes e pela sociedade", afirmou Ophir, que enalteceu, diante do caso, a importância da resolução antinepotismo já editada pelo CNJ.

Hoje é um daqueles dias de ir à forra... Afinal, vai ficando claro que algumas das críticas feitas aqui não são pensamentos isolados deste vosso criado, mas realmente a defesa de valores fundamentais da democracia e da liberdade. Considerando o teor da decisão do CNJ, aliás, a coisa ganha uma dimensão ainda maior: este blog pode dizer sem medo de errar que sempre esteve DO LADO DA LEGALIDADE!

Muito pertinentes as palavras do presidente da OAB, afinal é realmente absurdo ver um magistrado transformar um tribunal no seu "reinado" particular. Um juiz nada mais é que um servidor público, ou seja, ele está lá para prestar serviços à sociedade, não para se erguer acima dela. E isso, meus caros, é matéria de fato, independentemente do pensem alguns.

Duvido que o presidente da OAB leia este humilde blog, mas, ainda assim, fica aqui o convite para que visite o Amapá em breve. Acho que seria muito rico para este estado respirar um pouco os conceitos de democracia, liberdade e respeito pela coisa pública que ele demonstrou hoje, ao comentar a corajosa decisão do CNJ.

CNJ afasta presidente de TRE.

Pois é, do TRE do Amazonas... Vejam abaixo (publicado no Blog do Noblat):

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) determinou nesta terça-feira o afastamento do presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM), Ari Moutinho da Costa, e decidiu abrir processo disciplinar  para apurar as irregularidades supostamente cometidas pelo desembargador.

Segundo o CNJ, Moutinho da Costa é suspeito de ter favorecido o prefeito de Manaus, Amazonino Mendes, no andamento de um mandado de segurança no Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas.

Na ação, o prefeito contestava decisão tomada pelo Juiz da 58ª Zona Eleitoral de Manaus, que determinou a cassação do seu registro de candidatura por compra de votos.

- (A ação) recebeu tramitação mais célere do que a convencional - diz o relatório da sindicância feita pelo CNJ.

O documento acrescenta que a juíza Maria Eunice Torres do Nascimento, responsável pela cassação do registro de candidatura de Amazonino Mendes, foi afastada antes do julgamento do mandado de segurança e que a prestação de contas e sua diplomação foram prorrogadas.

- A gravidade das infrações funcionais supostamente praticadas impõe seu afastamento - afirmou o corregedor nacional de Justiça, ministro Gilson Dipp, em seu voto, aprovado por unanimidade pelos conselheiros.

Com a decisão, Moutinho da Costa ficará afastado de suas funções no TRE-AM e no Tribunal de Justiça do Amazonas até a conclusão do processo disciplinar no CNJ.

O conselho também investigará a relação considerada "suspeita" entre o desembargador e o governador do Estado, Eduardo Braga, que teria nomeado o filho de Moutinho para o cargo de conselheiro do Tribunal de Contas do Estado.

- O relacionamento é inapropriado, interferindo em sua independência judicial - afirmou Dipp.
Ele acrescentou que o desembargador ainda teria influenciado inquérito policial contra seu filho, ao requisitar para um cargo em comissão no TRE-AM o delegado que presidia o caso.

Resuminho rápido, que tal? Vamos lá:

1 - O prefeito de Manaus foi cassado, por uma juíza eleitoral de primeira instância, por compra de votos;
2 - O TRE do Amazonas, em tramitação mais célere que o normal, manteve prefeito cassado no cargo;
3- A juíza responsável pela cassação do prefeito foi afastada do caso;
4 - O CNJ considerou tudo muito suspeito e interviu, afastando o presidente do TRE/AM.

Lendo o que vai acima, os leitores poderão compreender com facilidade como funciona o Estado de direito quando a democracia é efetivamente respeitada e protegida de tentações autoritárias.

Aliás, uma dúvida: quantas vezes o prefeito de Manaus chegou a ser cassado em primeira instância? Uma? Duas? Quatro? Seis?!...
Deixo aqui minhas congratulações ao CNJ. Que continue fazendo valer a democracia e zele sempre mais pelo respeito às instituições públicas do Estado, combatendo quem quer que seja. E que o trabalho continue, pois deve haver ainda muitas outras irregularidades espalhadas pelos muitos rincões deste Brasil.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Ecos da esperança.

No post abaixo, tratei das especulações que foram criadas em torno do trabalho da juíza Sueli Pini, um ícone da resistência democrática neste pobre estado do Amapá.

Como é inequívoco para quem leu aquelas linhas, manifestei todo meu apoio à magistrada, cujo trabalho dedicado e incansável mereceu reconhecimento por pessoas do mais alto gabarito. Vejam alguns exemplos:

O também juiz Marconi Pimenta, outro que atuou com afinco a fim de reparar as mazelas verificadas ao longo da eleição municipal de 2008, disse, no Twitter, que "Sueli Pini é uma magistrada séria e imparcial. Um equívoco ter sido declarada suspeita no caso do prefeito".

O promotor de justiça Paulo da Veiga Moreira, que tive o prazer de ter como professor durante meu curso universitário, dirigindo-se diretamente à juíza Sueli Pini, disse o seguinte: "Dra. Suely Pini. Sua honradez fala mais alto do que toda a forma de opressão do que é vítima o povo brasileiro. Ao que parece os poderes constituídos ainda não entenderam que são autônomos, mas harmônicos entre sí. Parabenizo-á pela sua postura como verdadeira magistrada que honra sua toga. (...)"

Quando dois profissionais tão honrados decidem se colocar ao lado de Sueli Pini - e da verdade - fica fácil perceber que repudiar a tentativa de linchamento público ao qual foi exposta a magistrada é algo que se impõe.

Aproveito para transcrever abaixo a íntegra da nota à imprensa emitida pela própria juíza:

A Mma. Juíza de Direito da 10ª Zona Eleitoral informa à sociedade que na data de 23 de fevereiro do ano em curso foi protocolizada naquele cartório eleitoral, pela Defesa de Roberto Góes e Helena Guerra, argüição de suspeição desta magistrada nos inúmeros processos por infração à legislação eleitoral ainda pendentes de julgamento, ao fundamento de inimizade capital em razão de filiação partidária de seu filho Fernando Pini. Na data de 04 de março, em decisão fundamentada, a exceção de suspeição foi indeferida liminarmente por ser flagrantemente intempestiva, já que o prazo legal de cinco (5) dias previsto no Regimento Interno do TRE/AP, contado da distribuição dos processos, para ser oposta, não foi observado: Fernando Pini é filiado há mais de dois (2) anos e este fato é público, pois as filiações são obrigatoriamente publicadas; já os processos foram a mim distribuídos em fevereiro de 2009, quando tomei posse naquela Zona Eleitoral e assumi muitas centenas de processos oriundos das eleições municipais de 2008. Naquela decisão, entendendo ainda que a parte criou incidente desnecessário baseado em fato que sabe ser infundado, foi fixada multa processual, a reverter em favor da União. Em 09 de março foi interposto Recurso Inominado e na data de 22 de março foi prolatado despacho de admissibilidade, recebendo referido recurso em seu efeito devolutivo (art. 257 do Código Eleitoral). Em 29 de março foi por mim subscrito o Ofício de nº 78/10-CE/10ª Zona e determinada a remessa dos respectivos autos ao TRE/AP. Por fim, em razão de reportagens veiculadas no dia 01 de abril em jornais locais, colocando em dúvida o regular trabalho desenvolvido por esta magistrada à frente da 10ª Zona Eleitoral, foi oficiado à Presidência do TRE/AP encaminhando-lhe documentos comprobatórios da regular entrega da prestação jurisdicional na referida argüição de suspeição, não sendo assim verdade as ilações de procrastinação ou de protelação ali sugeridas, valendo lembrar que esta magistrada responde ainda pela Vara do Juizado Especial Cível Central desta Capital (onde tramitam mais de 15.000 processos) com índices recordes de produtividade e uma carga horária de mais de doze(12) horas diárias de trabalho.
Macapá, 04 de abril de 2010.
Sueli Pereira Pini
Juíza de Direito da 10ª Zona Eleitoral

Encerrando, algumas breves palavras àqueles que possam ter achado ofensivo aquilo que eu escrevi no post abaixo: como deixei claro ao final daquele artigo, a intenção foi apenas emprestar apoio a uma pessoa honrada e honesta, sem dirigir nenhum tipo de ofensa a quem quer que fosse. Logo, nenhuma pessoa precisa se sentir atingida pelas minhas palavras. Tenha ela honra, ou não.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Spe salvi.

"Na esperança fomos salvos." Tomo emprestadas algumas das palavras mais sábias ditas por São Paulo, o apóstolo (Rm, 8, 24), a fim de ilustrar bem o meu estado de espírito. Para quem vive no Amapá, esta terra apequenada e pobre, só resta a esperança; a fé. Acreditar em qualquer coisa que pertença à ordem secular é apenas ingenuidade.

Li que um desembargador do Tribunal Regional Eleitoral do Amapá concedeu uma liminar favorável à defesa do atual prefeito de Macapá, Roberto Góes, no bojo de uma ação de suspeição movida contra Sueli Pini, uma juíza daquela corte. Para quem vive neste estado, é fácil entender o que está acontecendo. Para quem é de fora, a coisa pode se tornar um tantinho mais complicada. Por isso, tentarei contextualizar a questão.

O TRE do Amapá é o mesmo tribunal que já concedeu seis liminares em favor de Roberto Góes, garantindo-lhe o direito de permanecer no cargo mesmo depois de ter tido seu mandato cassado seis vezes na primeira instância. A juíza Sueli Pini, por sua vez, é alguém que já teve seu trabalho nacionalmente reconhecido, sendo inclusive selecionada para concorrer a uma indicação ao prêmio Nobel da Paz. "Conhecendo-se bem os atores, é possível compreender o que deles se pode esperar", já dizia Shakespeare.

Pois bem, a defesa do prefeito Roberto Góes alegou que Sueli Pini seria suspeita para julgar as ações contra o primeiro mandatário do município por ter um filho filiado ao PSB, partido que faz oposição ao governo e que, na eleição de 2008, disputou contra o PDT de Góes o voto do eleitor. Quanto zelo pela democracia! Quanto cuidado com a coisa pública! Bastou saber que uma juíza do TRE tem um filho adulto e emancipado filiado a um partido de oposição, e pronto: logo surgiu quem se preocupasse com a lisura dos julgamentos.

Então, sem perder tempo, a defesa do prefeito "hexacassado" tratou de apontar aquela gravíssima violação da lei e da democracia, pedindo que a juíza reconhecesse sua suspeição. Mas eis que Sueli Pini, com aquela força que só as pessoas de consciência limpa possuem, tratou de fazer o óbvio: disse que um adulto é livre para tomar suas próprias decisões, sem precisar prestar contas aos pais. Assim, se o filho dela quer se filiar a um partido - vejam que coisa! - pode fazê-lo! Mas ela não se contentou em dizer apenas aquilo que era lógico e evidente. Foi além, e apontou aquilo que considerou litigância de má-fé da defesa, que estaria apenas tentando protelar o andamento de um processo. É por ter coragem de fazer coisas como essa, que Sueli Pini é quem é, não importando o que pensem dela certas mentes apequenadas daqui.

Opinião, cada um tem a sua, certo? Me atrevo a ter a minha - mesmo sabendo que alguns rincões do Brasil ainda não compreenderam muito bem como funciona a liberdade de expressão...

A meu aviso, um juiz não pode ser considerado suspeito por ter um filho filiado a determinado partido político. Fosse assim, um magistrado cuja filha brinca de bonecas jamais poderia julgar uma ação contra a Estrela. Será que um julgador cuja sobrinha é repórter da Globo será suspeito para julgar uma ação movida contra a Record? A inconsistência do argumento é flagrante, tanto que não resiste a trinta segundo de embate lógico. Aliás, falando em lógica, os convido para um rápido passeio braços dados com ela.

Se Sueli Pini é suspeita porque em três ocasiões decidiu contra o atual prefeito, não seria forçoso considerar suspeito quem, em outras tantas, decidiu favoravelmente a ele? Ou há algum reparo lógico ao raciocínio exposto? Se há, desafio-os a mostrá-lo!

Aliás, falando em lógica, cumpre indagar o óbvio: o entendimento que aponta para a suspeição de Sueli Pini vale apenas para ela? Ou se estende a todos os casos semelhantes? Em outras palavras, um outro juiz ou desembergador cujo filho também fosse filiado a um partido político, também seria considerado suspeito? Ou a regra seria diferente dependendo do julgador e/ou do partido em questão? Pergunto de boa-fé, afinal é perfeitamente possível que algum outro magistrado tenha um parente próximo interessado pela política, que tenha escolhido militar na atividade partidária. Como ficariam as coisas?

Como já mencionei antes, sob a minha ótica não há qualquer problema em ter um filho na política e exercer a judicatura. Assim, a menos que o magistrado fosse chamado a julgar o próprio filho militante político, não vejo como se poderia arguir uma suspeição. Em outras palavras, não considero que a eventual filiação dos filhos de uma juíza, um juiz, um desembargador ou qualquer outro magistrado tenha o condão de turvar, de plano, a imparcialidade destes. É exatamente isso que me faz considerar inaceitável que a lisura da juíza Sueli Pini seja colocada em discussão simplesmente porque ela tem um filho que decidiu se filiar a um partido. E isso sem que o dito cujo tenha sido julgado por ela ou pelo TRE.

Que se note: na minha escala de valores, os magistrados - quaisquer que sejam - continuam sendo reputados isentos e aptos a julgar, independentemente do que decidam fazer os filhos adultos deles. É a decisão proferida contra Sueli Pini que parece ver as coisas de outra forma, levantando suspeição sobre a juíza. Me é lícito, pois, presumir que a mesma decisão também valeria para os demais magistrados cujos filhos estão - ou venham a estar - filiados a partidos políticos, não? Pelo menos é isso que a lógica diz...

Repito: são indagações que surgem apenas em razão da decisão proferida em desfavor da juíza Sueli Pini. Eu, de minha parte, acho que nenhum seria suspeito. É o julgado contra aquela magistrada que diz o contrário. E, como devemos acreditar que um Tribunal é um órgão sério e comprometido com a democracia, é forçoso acreditar que o entendimento demonstrado no caso de Sueli Pini seria aplicado, também, em todos os casos semelhantes...

E mais: é importante que se diga que isso nada tem a ver com a defesa de qualquer partido político. Agarrar-se ao maniqueísmo PDT Vs. PSB - ou Góes Vs. Capiberibe - é apenas coisa de quem entende muito pouco de democracia e de liberdades individuais. Colocar-se ao lado de Sueli Pini não é tomar partido de qualquer agremiação política. É, antes, erguer escudos em defesa dos direitos e garantias individuais sobre os quais se erigiu toda a democracia ocidental, a mesma que parece estar perenemente sob ataque nestas terras do Amapá. 

Lançar dúvidas sobre o trabalho de Sueli Pini é questionar, em essência, o trabalho daqueles que ainda tentam se entrincheirar em uma resistência democrática, que procura defender o Estado de direito e suas instituições legalmente estabelecidas. É triste ver que pessoas assim sejam atacadas à luz do dia, como se toda uma reputação moral, construída ao longo de anos de trabalho sério e árduo, não significasse nada.

Há sociedades que prezam seus homens e mulheres de bem, tendo-os como exemplo para o futuro. E há aquelas que os agridem, escolhendo sabotar o próprio futuro. O Amapá, é fato, está na segunda categoria. E é por isso que digo sem medo de errar: apenas na esperança poderemos ser salvos. Não me é mais possível acreditar nos mecanismos e nas instituições seculares. E, nestes tristes tempos em que vivemos, cumpre indagar: tenho o direito a tal descrença? Ou sou obrigado a ter fé naquilo que é dos homens, sob pena de ser conduzido aos tribunais deles?

Não! Eu conheço a minha liberdade individual muito bem. Sei que ela me dá o direito de duvidar de um sistema que é capaz de lançar dúvidas sobre o trabalho de uma mulher justa e comprometida com a verdade. Eu, como indivíduo livre, escolho apreciar e defender Sueli Pini, pois "é preciso combater o bom combate", como também dizia São Paulo (II Tim, 4, 7).

Em qualquer sociedade civilizada, uma pessoa como a juíza Sueli Pini seria citada como exemplo, em vez de ter sua reputação e seu trabalho colocados em discussão em razão de uma contenda político-partidária. Triste presenciar semelhante jogo rasteiro, ainda mais quando se percebe que ele encontra eco em instâncias as mais elevadas. Como esta sociedade atual do Amapá será vista daqui a 50 ou 100 anos? Eu sei: será considerada a decadência do século XX, que se ocupou de dilapidar os alicerces democráticos, linchando publicamente os poucos baluartes da liberdade e da democracia. Abandonou-se em definitivo a civilização, escolhendo-se, em seu lugar, a pior barbárie que existe.

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P.S.: Ainda em atenção aos tempos sombrios em que vive o Amapá, um estado que viu mais de cem jornalistas serem processados num passado não tão distante, cumpre deixar claro que este texto não tem a pretensão de ofender nenhuma pessoa. Tenha ela honra, ou não.