sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Pesquisas esquisitas do "braziu". Ou: o porquê de Dilma NÃO ESTAR À FRENTE DE SERRA EM SÃO PAULO.

Eu já disse que não entro em correntes conspiratórias que acreditam na submissão de Ibope e Datafolha a PT e/ou PSDB. Tirando Vox Populi e Sensus, que até a grama da Esplanada dos Ministérios sabe que estão no bolso do petismo, aqueles outros dois institutos citados em primeiro lugar não possuem ligações com este ou aquele grupo. Isso não quer dizer que não se possa criticar os levantamentos por eles apresentados, inclusive apontando falhas no método e - por que não? - duvidando dos prognósticos.

Escrevi abaixo que duvido de boa parte dos números apresentados por Datafolha e Ibope. Vou além: acho que eles vão quebrar a cara com alguns resultados vindos das urnas, no próximo dia 3 de outubro. Isso quer dizer que são desonestos? Em essência, não. Quer dizer que podem ter se deixado contaminar por esse clima de "já ganhou", que ronda a campanha presidencial de Dilma, e que tenham deixado de fazer o próprio trabalho com o necessário capricho. E isso, meus caros, não é especulação. É coisa possível de se apontar com números, basta saber fazer continha básica. Ao trabalho:

Segundo o Datafolha, Dilma teria ultrapassado Serra em São Paulo, onde lideraria as intenções de voto por 41% a 36%. Desde que tomei conhecimento de tal resultado, cravei aqui: está incorreto! Por quê? Bem, questão de matemática, como já disse.

Segundo o mesmo Datafolha (atenção: estou usando dados do mesmo instituto!), Alckmin lidera a disputa para o governo de São Paulo com folga, tendo 54% das preferências contra 20% de Mercadante. E daí? Bem, daí que sempre de acordo com o Datafolha, 80% dos eleitores de Alckmin delcraram voto em Serra! Não se enganem: é uma enormidade!

"Ah, mas e os demais eleitores? Não são só os eleitores de Alckmin que contam!", poderá gritar os apressadinhos. É, não são. Vamos conhecer mais números interessantes:

- Como dito, 80% dos que votam em Alckmin, dizem votar em Serra;
- 5% dos que votam no tucano, dizem votar em Dilma;
- 39% dos que votam em Mercadante, declararam voto em Serra;
- 31% dos que escolhem o petista, também dizem votar em Dilma.

Meus caros, a matemática não é uma opinião, certo? A pesquisa do Datafolha ouviu 2.088 eleitores. Tomemos esses números como referência e passemos a analisar, a partir dos dados fornecidos pelo próprio instituto de pesquisa, a realidade das coisas:

- 1.127 pessoas disseram votar em Alckmin;
- 417 estão com Mercadante;
- 544 declararam voto em algum dos outros candidatos.

O que isso permite concluir? O seguinte:

- Declararam voto em Serra 1.063 pessoas (903 eleitores de Alckmin, 162 de Mercadante);
- Declararam voto em Dilma 185 pessoas (56 eleitores de Alckmin, 129 de Mercadante).

A diferença entre o tucano e a petista, como se nota, é clara. Digam os que quiserem os petistas, mas os números acima não mentem: não há como sustentar, com base na lógica, a tal liderança de Dilma em São Paulo.

"Mas e os outros candidatos?" Sim, eu não esqueci deles. Gente que vota em Russomano, Búfalo, Skaf e companhia pode, claro, votar também em Dilma. Mas isso não mudaria nada! Mesmo que os eleitores de todos os demais candidatos juntos (544) escolhessem Dilma, ELA AINDA FICARIA ATRÁS DE SERRA! Vejam lá: 185 + 544 = 729, ou seja, 334 a menos que Serra!

Fica a dica, Datafolha: a eleição ainda não acabou! Entrar na "onda" da vitória de Dilma já no primeiro turno pode ser arriscado. Melhor caprichar mais na próxima vez.

P.S.1: Este blog continua apostando que muita previsão vai quebrar solenemente a cara dia 3 de outubro. São Paulo não vai pra Dilma. Nem o sul! E digo mais: se ela não vencer - e bem! - em Minas, o segundo turno é certo.

P.S.2: Falando em pesquisas do "braziu", vejam o que o Vox Populi aprontou: segundo os valentes, Lula gozaria da aprovação de - segurem-se nas cadeiras! - 100% dos eleitores do Ceará! Sim, não são 99%, nem 98%. São 100%! TODOS! Eu nem vou argumentar dizendo que isso é impossível, afinal, ainda que ninguém (nem um mísero reacionário) desgostasse de Lula em razão dos vários desmandos havidos em seu governo, sempre iria existir aque sujeito "do contra", né? Aquele que ia dizer que não gosta só pra aporrinhar os amigos lulistas. Mas deixa isso pra lá. É o próprio Vox Populi que aponta A PALHAÇADA que é aquele levantamento ao dizer que a pesquisa tem margem de erro de 3,5% pra menos e... pra mais! Santo, Deus! É como se eles dissessem que de cada cearense, 1,035 pode aprovar Lula. É o fundo do poço, creiam. A definição perfeita para aquilo que se convencionou chamar, no Twitter, de #vergonhaalheia...

Eleições 2010 - Datafolha: Alckmin, Cabral, Costa e Genro mantém dianteira. Anastasia cresce.

Pincelada rápida nos resultados do Datafolha para alguns dos principais estados do país (sim, meu povo. Sem bairrismo. SP, RJ, MG e RS são, sim, mais importantes que os outros):

São Paulo:
Geraldo Alckmin, com 54% das intenções de voto, mantém sólida dianteira sobre Aloízio Mercadante, com 20%. Celso Russomano, que parecia capaz de poder incomodar o petista, ficou mais pra trás, com apenas 7%. De se notar o crescimento tímido de 4% registrado por Mercadante, que tinha 16% no dia 13 de agosto.

Não há muito o que comentar, afinal a eleição de Alckmin parece bem encaminhada. Mesmo esse pequeno crescimento registrado por Mercadatente não parece capaz de colocar em discussão a vitória tucana. Aliás, aposto que o petista deverá crescer até um pouco mais, afinal eles sempre beliscaram a casa dos 30%.

---

Rio de Janeiro:
A liderança sólida do governador Sérgio Cabral se mantém. Com 56% das intenções de voto, Cabral venceria em primeiro turno. Fernando Gabeira aparece com 17%. Na pesquisa anterior do Datafolha, realizada em 13 de agosto, Gabeira tinha 14%.

Ai, ai, cariocas... Tão perto do Cristo, tão longe de Deus... Sério que vocês vão reeleger um governo como o de Sérgio Cabral no primeiro turno?! Não posso crer... Taí, não creio! O RJ sempre se destacou por surpresas eleitorais e por "ondas de última hora". Em 2008, a tal "onda Gabeira", que levou a eleição pro segundo turno e quase deu a vitória ao candidato do PV, só começou na primeira semana de setembro - quando Gabeira tinha apenas 8%! Como estão as coisas hoje, é indiscutível o favoritismo de Cabral. Porém, se Gabeira conseguir crescer a ponto de levar a disputa pro segundo turno, a coisa pode ficar interessante...

---

Minas Gerais:
O candidato do PMDB, de Lula e de Dilma, Hélio Costa, tem 43% das intenções de votos. O candidato do PSDB e de Aécio Neves, Antônio Anastasia, tem 29%. Vale registrar que no dia 13 de agosto Costa ostentava os mesmos 43%, ao passo que Anastasia tinha 17%, o que revela um crescimento consistente do candidato à reeleição.

Como diria o Gabriel Azevedo, da "Turma do chapéu", "tchau, cotonete!" É isso, né? Já deu pra Hélio Costa. A tendência é claramente de crescimento da candidatura tucana, que caminha a passos largos para ultrapassar o candidato lulista ainda no primeiro turno. Aliás, essa é uma aposta que o blog faz desde já.

---

Rio Grande do Sul:
Tarso Genro lidera a disputa com 42% das preferências, seguido por José Fogaça, com 27%, e por Yeda Crusius, com 14%.

Não vou negar que a duração da liderança de Genro me surpreende. A essa altura da disputa, pensei que ele já estaria, ao menos, tecnicamente empatado com algum dos adversários. Mas continuo apostando na inteligência dos gaúchos. Duvido que entreguem, de novo, o governo nas mãos do PT. Acho certo que haverá segundo turno e, em tal caso, acho certo que Genro não leva.

---

P.S.1: Alguns leitores me perguntaram se não vou escrever sobre os novos números do Datafolha pra disputa presidencial. Não, não vou. E por uma razão bem simples: não há nada de novo. Dilma e Serra apenas se movimentaram dentro da margem de erro. "Ah, mas a vantagem dela agora é de 20 pontos!". Sim, e daí? Escrevi um texto sobre a disputa quando a vantagem era de 17 em favor da petista. Afirmei, então, que o jogo ainda não estava jogado. E continua não estando.

P.S.2: Viram o horário eleitoral ontem? Foi a primeira vez que o PSDB partiu pro confronto, mostrando ao país as práticas criminosas do PT. Essa bisbilhotagem no sigilo fiscal de meio mundo, incluindo a Ana Maria Braga, pode estar para esta eleição como o caso dos "aloprados" esteve para a eleição passada. Espero mesmo que tenham decidido, finalmente, partir para a desconstrução de Dilma. E que não parem mais!

P.S.3: Tô apostando que o Datafolha vai quebrar a cara legal em várias previsões... Não! Nada a ver com teorias conspiratórias. Não acho que o Datafolha tenha se vendido ao PT. Longe disso. Só acho que esse clima de "já ganhou" está contaminando um pouco o trabalho dos caras. Alguns exemplos: a) A vantagem de Dilma pode ser grande (deve ser), mas não é isso tudo. Ela não leva SP nem o sul, podem escrever; b) A vantagem de Cabral, no RJ, e de Costa, em MG, não é nem de longe desse tamanho todo; e c) Du-vi-de-ó-dó que Tarso Genro leve o governo do RS em primeiro turno. É esperar pra ver agora...

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

O perigo de se judicializar a democracia.

Reinaldo Azevedo, frequentemente citado neste blog, escreveu algumas considerações acerca de um perigo que ameaça da democracia brasileira: a tentativa de se judicializar o debate, tribunalizar a controvérsia. Ou, trocando em miúdos, a mania de resolver qualquer divergência na base do "então eu te processo!". Vejam o que vai abaixo com especial atenção:

"(...) cada vez mais, a Justiça Eleitoral se comporta, no Brasil, como um Tribunal de Exceção no que respeita à liberdade de expressão. Por que digo que é de “exceção”? Porque a Constituição assegura essa liberdade, e vem um tribunal eleitoral para dizer: “Assegura, sim, EXCETO nos casos em que…”

(...) na raiz da questão está, também, reitero, a sanha da Justiça Eleitoral de se comportar como bedel do debate político. Atribuir a alguém algo que não fez, especialmente um ato criminoso, é, obviamente, crime. Com ou sem eleição, tal prática deve ser punida. Mas qual é o crime em se atribuir a um indivíduo, político ou não,  um ato que pertence a seu passado? (...)

(...) A liberdade de expressão vive uma quadra delicada. “Autoridades” estão querendo usar a Justiça como uma espécie de borracha para apagar o seu passado. (...)

(...) Os meritíssimos Brasil afora que tomem tenência. Alguns podem até se sentir confortáveis no papel de censores da sociedade. Ocorre que esse modelo nunca acaba bem. Porque chega o dia em que aparecem os “juízes dos juízes” — e aí é a Justiça que vai se juntar ao ralo onde já tinha sido jogada a liberdade de expressão.

(...) O que me incomoda — e, na verdade, parece-me uma exorbitância — é que juízes eleitorais decidam o que pode ou não permanecer no ar. Aumenta a área cinzenta entre o que é censura pura e simplesmente e o que é zelo de justiça. Assegurada a liberdade de expressão, que cada um arque com a responsabilidade de transgredir direitos protegidos pela lei.

(...) Assim, tenho uma divergência de fundo com essa prática. Mas reconheço, claro, que a legislação no Brasil — e, às vezes, a ausência dela — dá margem aos juízes para decidir o que pode e o que não pode ser veiculado.

(...) Ora, se o jornalismo pode publicar um determinado material, um blogueiro ligado a uma candidatura não pode? Quer dizer que uma verdade ou uma referência histórica que seja deixam de ser o que são se utilizados como peça de campanha eleitoral? (...)

Penso exatamente a mesma coisa. E meus medos são os mesmos medos externados por Reinaldo. É temerário que braços do Estado resolvam ignorar, por vezes, direitos e garantias individuais inegociáveis, fruto de conquistas de toda a civilização. Não tenho medo de dizer que me sinto bem pouco confortável sabendo que a liberdade de expressão é permanentemente policiada.

É preciso que a sociedade entenda, de uma vez por todas, que não se pode ceder a nenhum tipo de patrulha do pensamento. Não se pode ceder à sanha autoritária de quem quer que seja, muito menos quando o vilipêndio das liberdades individuais é praticado pelo braço forte do Estado. As garantias da ordem democrática não são um favor que os Poderes da República fazem ao cidadão. Pelo contrário: a mera existência daqueles - e de quem neles atua - é uma concessão feita pela sociedade livre.

Em síntese, há que se aceitar de uma vez por todas que o indivíduo não pode ser policiado pelo Estado. Ele deve, isso sim, policiar este. E uma das maneiras mais eficazes de fazer isso é exercendo a liberdade de expressão em toda a sua plenitude.

NENHUM HOMEM É O ESTADO! NENHUM HOMEM É UM PODER REPUBLICANO! A democracia parte do pressuposto que os indivíduos são iguais perante a lei, e que outorgam ao Estado algumas permissões para que a vida em sociedade seja regulada. Qualquer avanço além disso por parte do Estado - e dos seus agentes - é deturpação da ordem democrática. E deve ser combatida com firmeza!

Gabeira: "A luta armada não estava visando a democracia"

Quando chamo Dilma Rousseff de terrorista, e afirmo que ela não lutou pela democracia, mas por uma ditadura de moldes soviéticos, a petralhada fica enfurecida. Ela sempre fica, aliás, quando confrontada com o horror que é o seu passado espúrio. O que mais ouço deles é o seguinte: "Você enfrentou a repressão? Fez parte da resistência à ditadura? Como você pode saber?!" Pois é... Essa é a lógica deles... Segundo esse raciossímio, é preciso efetivamente pular do alto da Torre Eiffel pra descobrir se vai morrer em razão da queda. Simplesmente saber que vai, não basta para esses valentes.

Hoje, Fernando Gabeira falou à Folha com a autoridade de alguém que militou na extrema-esquerda, atuou em grupos terroristas e, com o passar do tempo, soube fazer a necessária crítica a esse passado reprovável. Gabeira, hoje, não tem receio de apontar os erros do seu passado, que são, também, os erros do passado de toda essa esquerda brasileira que hoje está no poder. Leiam com atenção o que ele disse:

"Todos os principais ex-guerrilheiros que se lançam na luta política costumam dizer que estavam lutando pela democracia. Eu não tenho condições de dizer isso. Eu estava lutando contra a ditadura militar, mas, se você examinar o programa político que nos movia naquele momento, [ele] era voltado para uma ditadura do proletariado. Então, você não pode voltar atrás, corrigir seu passado e dizer que estava lutando pela democracia. Havia muita gente lutando pela democracia no Brasil, mas não os grupos armados, que tinham como programa esse processo de chegar à ditadura do proletariado. A luta armada não estava visando a democracia, pelo menos em seu programa", afirmou.

Funciona assim, petistas do meu coração: querem eleger Dilma? Elejam! Mas elejam sabendo que ELA FOI, SIM, UMA TERRORISTA! QUE ELA FAVORECEU A PRÁTICA DE CRIMES CONTRA CIVIS INOCENTES - INCLUSIVE ASSASSINATOS! E, principalmente, votem sabendo - e reconhecendo de uma vez por todas - que ELA NUNCA, JAMAIS, DEFENDEU A DEMOCRACIA.

Dito, isso, informo que a acusação encerra. Sem mais perguntas.

sábado, 21 de agosto de 2010

Eleições 2010 - Datafolha mostra aumento da vantagem de Dilma sobre Serra.

Ontem foi divulgada uma nova pesquisa do Datafolha. Aos números:

Dilma - 47%
Serra - 30%
Marina - 9%

O crescimento de Dilma é consistente e aponta para uma tendência de clara alta. Há cerca de uma semana, a petista tinha 41%, enquanto Serra aparecia com 33%. A conclusão é evidente: não apenas Dilma cresce, como cresce roubando eleitores do tucano. Há motivos suficientes para apontar o favoritismo da candidata do PT? Óbvio que sim! Aliás, é o que venho dizendo aqui há algum tempo - desde que a máquina petista deixou claro que abraçara, de verdade, a candidatura de Dilma. E há, também, motivos para dizer que a disputa terminou, e que Dilma está eleita? Bem, claro que não.

E é precisamente aí que este blog vai de encontro ao pensamento corrente na mídia nacional - curiosamente a mesma mídia acusada pelos petistas de ser tucana, de direita e preconceituosa... Não me atrevo a dizer que o jogo acabou! Longe disse: a partida, a bem da verdade, começou agora. Lembram de 2006? Contra Lula, o mito, Alckmin aparecia ainda mais atrás nas pesquisas (mais de 20% de diferença!). Às vésperas da eleição, o Datafolha apontava Lula reeleito com 12% de vantagem sobre o tucano. O que as urnas mostraram? Que haveria segundo turno, e que a diferença entre os dois foi de apenas 7%.

"Ah, então vai dizer que as pesquisas não são confiáveis?" Eu? Eu não! Quem costuma brigar com pesquisas, vocês sabem, são os petistas. Eu as tomo por aquilo que realmente são: amostras grupais de uma tendência. Em outras palavras, digo que pesquisa não substitui urna. Há que se esperar, principalmente considerando que falta mais de um mês para a eleição, e que muita coisa ainda pode acontecer.

É evidente que a candidatura de Dilma tendia a este crescimento. Isso não é nada surpreendente, afinal ela conta com a unção do presidente mais popular da história do mundo, né? Trata-se de pura lógica: se Lula tem 80% de abrovação, é natural que pelo menos uma boa parte disso seja transferido à sua escolhida. E está sendo! Com os fundamentos da economia sólidos (graças, diga-se, à adoção de uma política que sempre foi demonizada pelo PT) e a popularidade do presidente em alta, é natural que Dilma, à medida que se torne cada vez mais "a candidata do Lula", suba nas pesquisas.

Mas, se é assim, como ainda acreditar que a disputa está aberta? Bom, em primeiro lugar porque... está! Com mais de um mês pela frente, muita coisa pode acontecer. Principalmente quando se está diante de um PT tão líder e, por isso, tão perto de calçar o salto-alto... Pessoalmente, ainda acho que há tempo de sobra para dar uma guinada na campanha, adotando uma estratégia diferente: chega de "pós-Lula"! Ofereça-se ao povo uma alternativa de confronto.

"Ah, mas isso não renderia votos." Será? Bom, o que estamos vendo é que a tática da conciliação, da "oposição sem oposição", esta sim não tem sido frutífera... Ainda acredito firmemente que é preciso mostrar à nação o que Dilma fazia junto àqueles valentes da VAR-Palmares. Ou que é preciso evidenciar a ligação entre o PT e um grupo narcoterrorista. Ou ainda, deixar claro a uma sociedade que é majoritariamente contrária ao aborto, que Dilma é, sim, uma abortista. Os modernos marqueteiros acham que isso é "apelar". É fazer "jogo sujo". Eu acho que é dizer a verdade.

E ainda há os debates, principalmente o da Globo, que é, por razões óbvias, o mais visto. Eu insisto em achar Dilma antipática diante das câmeras, apesar do trabalho espetacular que a equipe de mídia do PT vem fazendo. Claro que Serra também não é um primor de simpatia, mas, perto dela, até parece um "velhinho legal". Penso que confrontar Dilma com questões duras de ordem política, ideológica e moral pode, sim, render bons frutos, se feito num debate. Basta ver que a petista sempre se mostrou nervosa e excessivamente ríspida quando agredida. Isso passa uma imagem ruim - a mesma que Marta sempre passou em São Paulo, de pessoa que não aceita o contraditório.

O principal, pois, não é saber se ainda há jogo a ser jogado. É evidente que há! Não houvesse, nem seria preciso esperar até 3 de outubro: bastaria ao TSE, diante da tendência apresentada nas pesquisas, dar posse a Dilma. Não! Há muita coisa para acontecer ainda. Resta apenas saber se a oposição vai decidir jogar esse jogo, ou se vai preferir sair de campo, entregando a vitória de bandeja ao adversário.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Ministro Francisco Falcão, do STJ: "Abuso de magistrado? Quem vai tomar conta não vai ser eu, vai ser a Polícia Federal."

Leiam com atenção o que vai abaixo, publicado no Estadão:

"A hora que eu tomar conhecimento que algum desembargador está usando carro oficial para fins particulares eu vou dar ordem para a Polícia Federal apreender imediatamente o carro com o magistrado dentro", avisa o ministro do Superior Tribunal de Justiça Francisco Falcão, corregedor-geral da Justiça Federal.

Falcão comandou inspeção no Tribunal Regional Federal da 3.ª Região (TRF3), em São Paulo. A investigação aponta desembargadores que usavam a frota da corte - modelos Corolla, Santana e Peugeot - mesmo em férias, domingos e períodos de recesso.

"Fiquei chocado", afirma o corregedor. "Como é que o magistrado leva o carro para a praia? Tinha desembargador que ia e voltava todo dia. Isso é falta de juízo, inconcebível." Para Falcão, tal conduta "nos tempos de hoje é coisa de louco". Segundo ele, "havia abusos".

A apuração pegou o ano de 2009 e os três primeiros meses de 2010. O relatório informa que o desembargador Baptista Pereira, ex-corregedor do TRF3, fez aproximadamente 30 viagens, com cerca de 850 quilômetros cada - em 23 delas o veículo foi conduzido pelo próprio magistrado e em 7 pelo agente de segurança Cavalcanti. Em 13 viagens Baptista Pereira estava em férias. O documento diz que em um fim de semana, de férias, o magistrado rodou 1.868 quilômetros, ele próprio ao volante. Pereira não respondeu a contatos do Estado.

"Um absurdo", avalia Falcão. "O magistrado não pode usar o carro em férias. Carro oficial é para serviço, exclusivamente."

Os desembargadores têm prazo de 60 dias para dar explicações. Todos os magistrados ouvidos pela reportagem sustentam que se dedicam muito ao trabalho, não medem esforços no interesse público e frequentemente interrompem seu descanso para atender a compromissos oficiais do TRF3. Nessas situações, diz o corregedor, a cúpula da corte deve baixar ato formal de convocação do juiz, mediante fundamentação - as férias são remarcadas.

Falcão observa que desembargadores podem usar o carro no trajeto de casa para o trabalho, mas há um limite para essa concessão. "O uso de carro é permitido dentro do município de São Paulo", adverte Falcão. O relatório cita pelo menos três desembargadores - Nélson Bernardes, Leide Polo e Eva Regina - com residência em Campinas. "O agente de segurança Estevo reclamou do cansaço ocasionado com as viagens a Campinas", destaca o relatório no capítulo sobre a desembargadora Leide.

"Tudo o que estou dizendo eu disse para os desembargadores de forma bem clara. Pelo que eu sei estão seguindo as novas instruções. Não acredito que desafiem, mas se houver descumprimento daquilo que foi determinado vamos agir. Se tiver de tomar uma providência tomo sem titubear. Se souber de novos abusos quem vai tomar conta não vai ser eu, vai ser a Polícia Federal."

Sabem aquele sorrisinho irônico, que fica no cantinho da boca? Pois é ele que enfeita meu rosto neste momento... Dizer mais o quê?

Pessoalmente, fico realizado ao ver gente que se acha "o Estado" tomando choque de realidade. É bom para a democracia, entedem? É o tipo da coisa que engrandece a civilização em si, pois mostra que não existe pessoa acima de outra pessoa. NEM POR FORÇA DE CARGO! Enfim, quebrar certas lógicas que conferem privilégios absurdos a uns e outros serve, também, para lembrar que um funcionário público é, antes de mais nada, um servidor do povo. Não importa qual lugar ele ocupe: do Presidente da República, ao faxineiro da escola pública, todos são pagos com o nosso salário para nos servir!

P.S.: Seria interessante que houvesse um telefone - uma espécie de "disk-denúncia" - para que cada um de nós pudesse denunciar o uso indevido dos veículos oficiais, né? Fica a dica pro ministro.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Lula confirma ligação do PT com Foro de São Paulo. Ou: acorda, oposição! Esse é o caminho!

Alguns conhecidos dizem que minha "oposição radical" ao governo e ao PT não poderia jamais encontrar eco na sociedade brasileira como um todo. "O povo quer saber da economia, não de amizade com ditadores e passado terrorista. Nem adianta apelar pra isso.", dizem. Eu discordo. Sempre discordei. E acho que os fatos estão do meu lado.

O brasileiro é um povo majoritariamente conservador em matéria de moral. A maioria das pessoas é contra o aborto, contra a liberação das drogas, favorável à pena de morte e à redução da maioridade penal, por exemplo. Isso não basta para definir o Brasil como sendo "de direita", afinal a maioria da sociedade é contrária a coisas como o liberalismo e as privatizações, além de gostar, por tradição, de um Estado forte. Apesar disso, não resta dúvida que, do ponto de vista dos valores morais, o brasileiro médio é, sim, um conservador.

Mas por que isso é importante? Bem, imaginem esse brasileiro conservador descobrindo que um dos candidatos em disputa - bem como seu partido - é abertamente favorável ao aborto. Imaginem esse mesmo sujeito tomando conhecimento de que há um candidato que há décadas participa de uma entidade que congrega um grupo terrorista narcotraficante. É bastante lógico considerar que a maioria dos eleitores passasse a rejeitar tal pessoa. Mas, para isso, seria necessário explicar ao povo o que é o terrorismo das FARC. O que é o Foro de São Paulo. E é essa iniciativa que as oposições brasileiras não têm, sabe-se lá por medo de quê. Com 14 minutos diários de horário eleitoral na TV, chegando a milhões de brasileiros, acho que daria perfeitamente para PSDB/DEM gastar um punhado de minutinhos mostrando o horror praticado pela guerrilha colombiana, e mostrando como aqueles facínoras são aliados do PT e, por conseguinte, de Lula e Dilma. "Jogo sujo"? "Propaganda negativa"? Ora, pros diabos com essa cantilena marqueteira! Isso nada mais seria do que expor a verdade à nação, nada além.

Mas e o risco de atacar um governo - e um presidente - popular? Ué, sempre existe. Mas é um risco que toda oposição democrática precisa correr! O PT vive tentando subjugar a democracia, a fim de destruir toda e qualquer oposição. Não cabe a PSDB e DEM ajudá-lo nisso. A obrigação é resistir! Em todas as melhores democracias do mundo, partidos vencem e perdem eleições dentro da normalidade. Anormal é um partido desistir de apontar os erros e as trapaças do adversário, por medo de enfrentar pesquisas de popularidade. O povo quer gostar de Lula? Que goste! Mas que goste sabendo que Lula, há 20 anos atrás, fundou um fórum que abriga a escória da América Latina.

Na oposição atual, apenas Índio da Costa, o vice de José Serra, vem mostrando coragem de dizer algumas verdades nas fuças do PT e de seus aliados. "É estratégia de campanha, para que Serra não precise criticar em primeira pessoa.", dirão. Sim, pode ser. Mas o fato é que a considero uma estratégia errada! Os grandes líderes são aqueles que não têm medo do embate político-ideológico. Ao contrário: são aqueles que o promovem! Ontem, durante o debate entre os candidatos a vice-Presidente, promovido pelo Estadão, Michel Temer, o vice de Dilma, disse que "não há relação alguma entre o governo brasileiro e as FARC."

Trata-se de um MENTIRA EVIDENTE, já mostro por quê. Antes, porém, vejamos a fala de Índio que levou Temer a dizer aquilo:

"Até agora, a Dilma não respondeu se há ou não ligação entre o PT e as Farc. Também não considero as Farc movimento social. Elas são financiadas pelas drogas e droga é o maior mal que tem no nosso país do ponto de vista da segurança e da saúde. (...) Aliás, as Farc não teriam coragem de me chamar para uma reunião, porque, se chamar, levo a Polícia Federal e prendo. O presidente Lula, em abril do ano passado, sugeriu em entrevista que as Farc virem partido político para chegar ao poder. Sou contra as Farc, sou contra as drogas, sou contra as Farc no poder. Teria muita vergonha de propor ao Comando Vermelho ou ao PCC que virassem partido político para chegar ao poder."

Acima temos, sem somba de dúvida, a mais contundente, direta e, principalmente, verdadeira, manifestação de um político da oposição desde o dia da possa de Lula para o primeiro mandato. É ESSE DISCURSO QUE DEVERIA NORTEAR A OPOSIÇÃO! É ISSO QUE PSDB E DEM PRECISAM COMUNICAR AO PAÍS NO HORÁRIO ELEITORAL. O povo quer o PT e Dilma? Que os tenha! Mas que os tenha sabendo que vai levar, a reboque, o narcoterrorismo das FARC! Os mais pobres e menos instruídos - aqueles sustentados pela bolsa-esmola oficial - não se importam com coisas dessa natureza? Vão continuar votando em Dilma mesmo assim? Tenho sérias dúvidas quanto a isso. Mas, ainda que fosse verdade, aos diabos! A preocupação de perder nas urnas não pode levar a oposição a desistir de fazer política, sob o risco de ficar sem as duas coisas.

Àquela fala fabulosa de Índio da Costa, Michel Temer respondeu, como demonstrado acima, dizendo que não havia ligação entre o governo brasileiro e as FARC. Ele mentiu, eu disse. Aliás, eu, não! Quem deu razão a Índio e desmentiu Temer foi o próprio Lula! Leiam abaixo os principais trechos da carta que o petista mandou para saudar a abertura do XVI Encontro do Foro de São Paulo:

Queridas Companheiras e Companheiros
 
Há 20 anos, 42 partidos e movimentos progressistas da América Latina e do Caribe reuniram-se em São Paulo - convidados pelo Partido dos Trabalhadores - para um Encontro sem precedentes na recente história política de nosso Continente.

Nascia o que um anos depois, no México, seria chamado de Foro de São Paulo.

(...) Não criamos uma nova Internacional.

Conhecíamos a história das internacionais e sabíamos que era mais importante termos um Foro no qual pudéssemos intercambiar experiências, discutir acordos, mas também desacordos.

As transformações pelas quais passaram a América Latina e o Caribe nestas duas décadas têm muito a ver com os debates que realizamos.

(...) Uns poucos tentam caracterizar o Foro de São Paulo como uma organização autoritária. É o velho discurso de uma direita que foi apeada do poder pela vontade popular. Não se conformam com a democracia de que se dizem falsamente partidários.

A contribuição de meu partido e outros partidos progressistas do Brasil para esta nova realidade do Continente é de todos conhecida.

(...) Recebam, queridos amigos, o abraço do seu irmão e companheiro
 
LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA
Presidente da República Federativa do Brasil

Que tal essa carta no horário eleitoral da oposição, mostrando que Lula confirma a existência do Foro de São Paulo, uma entidade que, durante muito tempo, foi tratada como "paranóia da direita"? Mais que confirmar a existência e o pleno funcionamento do FSP, Lula deixa claro que foi o PT quem o fundou, há 20 anos! Depois dessa carta, nenhum petista em particular - ou esquerdista em geral - poderá mais negar a existência do FSP, nem sua importância política dentro da América Latina. Está tudo lá, cristalino como as águas de um riacho.

É evidente que a carta de Lula, como tudo o que é feito por essa gente sociopata, está permeada de mentiras as mais rasteiras. É ridículo, por exemplo, ler que as tais transformações verificadas na América Latina têm alguma relação com os debates realizados no Foro de São Paulo. Pelo contrário: não guardam relação alguma! Enquanto FHC implementava o Real no Brasil, o PT e seus amiguinhos do FSP se ocupavam de boicotá-lo abertamente! Mas isso não surpreende. Essa canalha - e aqui me refiro a essa esquerda órfã do Muro de Berlim como um todo - costuma mentir com a mesma facilidade com que mata. E, no mais das vezes, faz as duas coisas com igual desenvoltura...

Sou só eu que acha a idéia de revelar a verdade obscura do PT ao país muito melhor do que ficar tocando um "sambinha do Zé"? Não será essa a chance de criar o chamado "fato novo"? NÃO SERÁ A CARTA DE LULA UMA NOVA ESPÉCIE DE DOSSIÊ DOS ALOPRADOS?! Cumpre à oposição descobrir. Essa mesma oposição já passou oito anos servindo de escada para o PT, sem sequer defender as próprias conquistas - permitiu que Lula se apropriasse até mesmo da estabilidade econômica! É HORA DE FAZER UM POUCO DE... OPOSIÇÃO! Deixem a função de "candidato da continuidade" para Dilma, e tratem de mostrar para o Brasil como o PT faz política. Lembrem ao país o mensalão, os aloprados, os Correios, a proximidade com regimes fascistas que apedrejam mulheres e, não menos importante, a relação fraternal que há entre o partido de Dilma e um grupo terrorista que vive do tráfico de drogas.

Pessoalmente, acho que faria um bom estrago no horário eleitoral um vídeo mostrando um drogado terminal no Brasil e, em seguida, explicando toda a cadeia que liga esse sujeito aos traficantes colombianos, que são chamados de "queridos companheiros" por Lula. Ou então estampar na TV dos brasileiros o abraço obsceno entre Lula e Ahmadinejad, cortando depois para mulheres mortas por apadrejamento. Isso é "propaganda negativa"? Com os diabos! Isso é dizer a verdade! Os petistas estão há décadas acusando os adversários por tudo de ruim que existe no mundo, imputando-lhes, inclusive, aquilo que nunca fizeram. É HORA DE CONFRONTAR O PT COM SEUS ATOS, SEU PASSADO E SUA PRÁTICA POLÍTICA!

Chega de entregar o processo político aos "marqueteiros do otimismo", que ocupam todo o horário eleitoral com sambinhas, forrós e frevos da pior qualidade. Desistir de fazer política só favorece quem não tem vontade de fazer política, como é o caso do PT. Abdicar do confronto salutar, próprio de uma democracia, em nome da retórica "paz e amor" criada por Duda Mendonça, em 2002, não engrandece o processo democrático. Antes, o diminui. Ou PSDB, DEM e PPS acordam para isso agora, ou serão engolidos por sabe-se lá quantos anos seguidos de governo PT. E duvido que eles consigam sobreviver a uma "era Dilma", seguida de outra "era Lula". Será o fim da oposição democrática brasileira, e a institucionalização do "moderno príncipe", representado por esse estranho monstrengo que nasceu do cruzamento entre o sindicalismo, o esquerdismo stalinista e a "intelequitualidade" universitária.

NÃO PRECISAMOS DE MAIS POLÍTICOS QUERENDO SER HERDEIROS DO LULISMO. DILMA JÁ OCUPA ESSE LUGAR. O PT JÁ PREENCHE ESSE NICHO. E DE PT JÁ BASTA UM. TEMOS DIREITO A UMA ALTERNATIVA.

O começo do horário eleitoral e "a escolhida d'O Escolhido".

Ontem foi o primeiro dia do malfadado "horário eleitoral gratuito", que de gratuito não tem nada, como todos sabemos. Trata-se de mais uma jabuticaba típica da política brasileira, que não contribui em nada para o amadurecimento do processo democrático. Ou alguém aí acha que ver os candidatos desfilando jargões e promesas vazias no horário nobre favorece o país?

Os programas de ontem foram, em linhas gerais, mornos. Nenhum surpreendeu, nenhum trouxe um fato novo à campanha. Ficou cada um na sua, cantando as próprias "glórias". Entre os chamados "nanicos", merece nota o candidato do PCB - sim, ainda há um partido comunista no Brasil! -, capaz de pedir votos para... fazer a revolução! Ah, não! Quer revolução? Se veste de homem, pega o trabuco e vai pra rua matar a burguesia. Revolução feita com votos obtidos dentro do processo democrático? Piada, né?

Também merece nota o "bom velhinho" Plínio de Arruda, que escolheu o melhor fundo musical de todos os candidatos: a batida inconfundível da música "We'll rock you", do Queen. Uma escolha, diga-se, um tanto capitalista e burguesa... Mas incontestavelmente acertada! Muito melhor que o jingle salvacionista de Dilma e que o "pagode do Zé", de Serra - falarei sobre eles logo.

Marina Silva é a maior decepção desta eleição. Disparada! Ensaiaram tanto uma campanha triunfalista bem ao estilo "Yes, we can!", mas acabaram apelando para a pregação barata da Igreja do aquecimento global dos últimos dias. O recado transmitido pela candidata do PV foi exatamente o inverso: o mundo tá ferrado mesmo e não dá pra fazer mais nada. Faltou só o "CORRE, NEGADS!", pra completar.

Quem acompanhou as entrevistas de Marina, ficou com a impressão que estava sendo desenhada uma nova personagem arrimada na retórica do "oprimido-que-venceu". As cartas pra fazer esse discurso ela tem: é mulher, negra (bem, negra ela não é...), de origem miserável e, o que é mais importante, tem discurso progressista. Tudo bem previsível, apontando na direção da salvadora do mundo. Em vez disso, a campanha dela resolveu surpreender. E conseguiu! Só que surpreendeu negativamente. Marina, toda de preto, lendo um texto que mais parece ter saído da cabeça de Al Gore, não transmite apelo eleitoral nenhum. "Ah, mas a eleição é o de menos! O que conta é a causa.", dirão os "marinófilos" do momento. É, pode ser... Sendo assim, eu estava certo quando disse que Marina não deve buscar a Presidência, mas a canonização...

Serra claramente escolheu focar num tema preferencial ontem: a saúde. Faz bem, afinal trata-se da maior preocupação dos brasileiros, e de uma área na qual ele conseguiu bastante destaque - inclusive internacionalmente. Pelo formato escolhido, suponho que vários temas devam ser abordados nos programas seguintes, para evitar o risco de Serra se mostrar um candidato monotemático. Em outras palavras, a saúde é importante, sim. Assim como o são a educação e a segurança pública, por exemplo.

O estilo do programa mostrou algo que defino como "Serrinha paz e amor". Não me agradou lá muito, não... Não houve nenhum tipo de confronto ético-ideológico com os adversários. Pelo contrário até: a campanha de Serra escolheu aquele que considero o pior jingle eleitoral da históriadessepaiz! Francamente, me parece até óbvio: com apenas sete minutos de TV - três a menos que a principal adversária! -, não se pode desperdiçar tempo falando de Lula.

Como pontos positivos da campanha de Serra, destaco: 1) o profissionalismo do que foi apresentado, retratando números e propostas concretas; 2) a objetividade da linguagem, optando sempre por frases simples e curtas, bem acessíveis ao público.

Mas é evidente que vi mais pontos negativos: 1) A apelação pra retórica da "origem humilde" está fora de lugar. Lula já se apropriou disso pra todo o sempre! Além do mais, devo concordar com o NPTO, que lembra a origem humilde hors concourse da Marina; 2) O jingle escolhido é um desastre! Primeiro erra ao trocar o conhecido "José Serra" por um desconhecido - e sem graça - "Zé". Essa tentativa de popularizar o tucano a qualquer preço não trará bons frutos. Nunca é demais lembrar que o PSDB cometeu o mesmo erro ao trocar "Alckmin" por "Geraldo", em 2006; 3) A escolha dessa retórica ancorada apenas no "pós-Lula", abrindo mão de qualquer tipo de confronto político com o governo atual é estrategicamente errada. "Mas Lula tem 80% de aprovação!", berram os "especialistas" em política. Sim, e Dilma tem a metade disso em intenções de voto. A lógica é clara: muita gente que aprova o governo Lula não está votando automaticamente em Dilma; 4) Há brasileiros que rejeitam a corrupção, o aparelhamento do Estado, os laços do PT com as FARC, com Chávez, com o Irã e com o narcotráfico. É essa gente que se sente órfã de um discurso de oposição. No primeiro turno de 2006, Alckmin conseguiu conquistar esses votos. Serra parece ter decidido virar as costas para eles.

O programa de Dilma foi aquele esteticamente mais bem acabado. A escolha do PT é clara - e parece irreversível: apostar no triunfalismo e na emoção, na tentativa de encerrar a disputa já no primeiro turno. Talvez por isso a enorme exposição de Lula, que ocupou metade do tempo total. A mensagem era uma só: Lula é o escolhido, e escolheu Dilma para sucedê-lo.

Não preciso lembrar a ninguém que não voto em Dilma nem gosto do PT. Quem me lê sabe disso. Por isso não preciso afetar aquele "isentismo" típico da canalha que escreve a pagamento. Posso dizer sem medo de ser considerado "inimigo do PT", que o programa de Dilma apelou de forma obscena para o rebaixamento das instituições democráticas, tratando o povo como mera mercadoria, como propriedade de Lula. Vejam, por exemplo, o jingle tocado no final do programa, cuja letra transcrevo abaixo:

Deixo em tuas mãos o meu povo
E tudo o que mais amei
Mas só deixo porque sei
Que vais continuar o que fiz
E meu país será melhor
E o meu povo mais feliz
Do jeito que eu sonhei e sempre quis
(…)
Agora as mãos de uma mulher vão nos conduzir
Eu sigo com saudade, mas feliz a sorrir
Pois sei, o meu povo ganhou uma mãe
Que tem um coração que vai do Oiapoque ao Chuí

Lembram que classifiquei o jingle de Serra como o pior da históriadessepaiz? Pois esse de Dilma é, sem sombra de dúvida, o pior da história do universo tal qual o conhecemos! "Meu povo"?! Lula é um megalômano! Ele não deveria estar na Presidência. Deveria estar em um manicômio! Percebam que o que vai acima não deixa margem para qualquer dúvida: o discurso do PT é fascista! O "grande líder" se apropriou da sociedade e a substituiu por um objeto, algo do qual pode dispor livremente - inclusive repassando ao sucessor.

Reinaldo Azevedo foi ao ponto ao sintetizar a ideologia petista revelada no programa de ontem:

- Nas democracias, é o povo quem passa o poder adiante; no regime lulo-petista, é o mandatário quem tenta passar o povo adiante;
- Nas democracias, o povo é sempre o sujeito; no regime lulo-petista, o povo é só objeto direto;
- Nas democracias, o povo concede o poder ao mandatário; no regime lulo-petista, o povo é concedido ao mandatário — só é sujeito na voz passiva…

Eu, que não costumo dar a menor bola para essas estratégias marqueteiras, tenho uma ótima sugestão para o horário eleitoral tucano: reprisar o clipe final do programa de ontem da Dilma, inclusive com essa música fascistóide que eles escolheram, alternando com aquela música chamada "Vida de gado" (acho que é esse o nome...), do Zé Ramalho. Duvido que o brasileiro goste de ser tratado como gado. Cumpre à oposição deixar de #mimimi e mostrar que é isso que o PT está tentando fazer!

Adoro os comentários do blog!

Vocês sabem que a turminha lá das sombras adora bater ponto aqui, não é? Eles pensam que me aborrecem com suas loucuras, mas a verdade é que me fazem rir. Sempre que possível - quando rabiscam suas idéias dentro dos limites mínimos de civilidade -, publico o que recebo deles. Tudo para garantir a nossa diversão. Vejam, por exemplo, o que segue:

"clareza é um conceito estetico (cultural, para os leigos). se vc partilha uma cultura comum com alguem vc partilha de clareza. clareza nao é medida matematica, portanto. o povo burro carece de sistemas, modelos e engenharias para o enriquecimento delas, que estao fora da caixa."

Eu responderia ao que vai acima, mas confesso que não consegui entender o que diabos o sujeito pretendia dizer com aquele amontoado tosco de palavras - e custo a acreditar que ele mesmo tenha entendido...

Continuem assim, seus lindos! Vocês me divertem!

sábado, 14 de agosto de 2010

Datafolha - 3: Dilma abre oito pontos de vantagem sobre Serra.

O Datafolha saiu na noite de ontem, e os petralhas vindos do reino das sombras vieram ao blog durante a madrugada "cobrar" um texto deste vosso criado. "E aí? Não vai falar da derrocada do Serra?" Não! Não vou! Não derrocada alguma, como os próprios números da pesquisa demostram: Dilma Rousseff tem 41%, contra 33% de José Serra.

A tendência de alta da candidata de Lula e do PT é evidente: Dilma tinha 36% em julho, e cresceu cinco ponto. Já Serra, por sua vez, parece em queda: tinha 37% e agora perdeu quatro pontos. É evidente que a conjuntura favoresce Dilma, coisa que este blog nunca negou. Além de ser a candidata de Lula, presidente mais popular da história do universo tal qual o conhecemos, Dilma está em campanha há uns dois anos, apenas ocupando-se de promover sua figura. Não é de estranhar que toda essa estratégia tenha rendido frutos. A diferença entre o meu pensamento e aquele os petralhas é simples: não me surpreendo com a dianteira de Dilma, mas, em vez disso, pergunto-me como diabos ela pode ter "só" 41% ainda! Com todo o apoio que tem, Dilma consegue estar apenas oito pontos acima de Serra, que está concorrendo sozinho - verdade seja dita, Aécio Neves ainda não entrou na campanha (entrará um dia?)...
O PT conseguiu algo muito importante: chegar ao horário eleitoral televisivo com Dilma à frente. Em tal condição, a ex-ministra poderá se valer bem do maior tempo de TV que possui (10 minutos contra 7 de Serra), ocupando-se apenas da tal "agenda positiva". Ou, o que é ainda melhor para os petistas, poderá deixar a TV todinha para Lula, a fim de se aproveitar ainda mais da imagem do atual presidente. Mas isso não é o fim dos tempos para a oposição.

Se tem algo que tucanos e democratas precisam entender, é que o jogo eleitoral precisa ser jogado até o fim. Em 2006, era dada como certa a derrota de Alckmin já no primeiro turno, mas não foi isso que as urnas mostraram. E o ex-governador de São Paulo, nunca é demais lembrar, concorreu contra o "mito do operário" lulista, algo, a meu ver, imbatível nessepaiz. Agora Serra enfrenta uma pessoa comum. Apoiada por Lula, isso é fato. Mas, ainda assim, bastante comum.

Creio que o horário eleitoral só tende a beneficiar o PT, mas os debates - em especial o da Globo - devem ser benéficos para o tucano. Oito pontos de diferença representam muito pouco - ou quase nada - em matéria de eleição. Jogar a toalha agora é um erro, afinal há muito tempo de campanha ainda pela frente. Na minha humilde opinião, urge que a oposição faça duas coisas: 1) parta para o confronto contra Dilma, revelando ao Brasil o passado e a inexperiência administrativa dela. É preciso lembrar oa país que Dilma não é Lula!; e 2) vença em Minas Gerais. Considero indispensável uma vitória no segundo maior colégio do país, o que "daria" o sudeste para Serra e adiantaria bem as coisas. É isso, ou se preparar para mais uma derrota e, ao cabo dela, mais disputas internas que prometem paralizar novamente os oposicionistas.

Datafolha - 2: Alckmin vence em SP; Cabral vence no RJ; Vantagem de Hélio cai em MG.

São Paulo:
Segundo o Datafolha, Geraldo Alckmin aparece com 54% das intenções de voto. Em segundo lugar está Aloízio Mercadante, com 16%, seguido por Celso Russomano, com 11%.

A menos que se dê uma reviravolda hollywoodiana em São Paulo, Alckmin será o próximo governador paulista - para sorte dos paulistas. Três fatos principais me levam a apostar nisso: 1) O PSDB, que governa há 16 anos, tem resultados para apresentar e é aprovado pela sociedade; 2) A dferença de Alckmin para os adversários só faz crescer (aumentou 5% em um mês, e o horário eleitoral ainda nem começou!); e 3) Apenas 8% dos entrevistados se declara indeciso.

---

Rio de Janeiro:
Sérgio Cabral tem 57% das preferências (em julho tinha 53%), contra 14% de Fernando Gabeira (em julho tinha 18%).

A história nos mostra que não é prudente cravar apostas quando se trata do Rio de Janeiro. Os cariocas são propícios a aprontar surpresas e "ondas eleitorais", basta lembrar da eleição de 2008, que viu o próprio Gabeira surpreender muito - ficou a um tantinho assim da vitória. Feita tal ressalva, não se pode negar o favoritismo de Cabral, que concorre com todas as máquinas (federal, estadual e municipal) ao seu favor. Sua vantagem, principalmente no interior do estado, é muito grande.

---

Minhas Gerais:
Segundo a pesquisa, Hélio Costa mantém folgada dianteira, com 43% dos votos. Antônio Anastasia aparece em segundo, com 17%. Outro dado relevante é o número de indecisos: 24%.

A dianteira de Costa é respeitável, mas não tenho medo de apostar na vitória de Anastasia. A razão é bem simples: o atual governador é o candidato de Aécio Neves, o queridinho dos mineiros. O ex-governador, candidato ao Senado, conta com cerca de 80% das preferências dos mineiros. Natural que ele consiga transferir ao menos metade disso para o seu candidato, não? Por isso acho que Anastasia vencerá, e vou além: não me surpreenderia se ele vencesse ainda no primeiro turno.

Datafolha - 1: Tarso lidera no RS; Richa no PR.

Rio Grande do Sul:
Segundo a última pesquisa Datafolha, Tarso Genro lidera no Rio Grande do Sul com 38% das intenções de voto. Em segundo lugar aparece José Fogaça, com 27%, seguido pela atura governadora, a tucana Yeda Crusius, com 16%.

A liderança do petista se mostra estável pouco acima daquele um terço do eleitorado que sempre vota no PT. Exatamente por isso não considero Genro favorito, afinal a distância entre ele e os demais vem diminuindo gradativamente. Fogaça é sem dúvida o favorito para derrotar o petista, mas acho temerário descarta Yeda. A atual governadora, vítima da pior face da conhecida máquina petista de moer reputações, terá muito tempo de TV disponível para se defender e apresentar os excelentes resultados de seu plano de saneamento da máquina pública. Estando a cerca de 10 pontos do segundo colocado, não seria nenhuma surpresa se ela começasse a crescer. Mas o principal palpite que me arrisco a cravar é outro: Tarso não vencerá!

---
Paraná:
No Paraná, Beto Richa aparece com 46% dos votos, contra 34% de Osmar Dias. A vantagem de 12% do tucano parece uma clara tendência de crescimento e, quiçá, de vitória já no primeiro turno, afinal em julho a distância entre os dois era de apenas 5%.

No caso do Paraná, nem parece exagero dizer que Richa é favoritíssimo e deve, sim, ser o próximo governador. Bom para os paranaenses, que vão trocar Requião, um aprendiz de Hugo Chávez, por um político competente e sério.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Rápidas sobre candidatos e candidaturas.

1) Debate da Band.
Alguns leitores me perguntaram se não vou escrever sobre o debate entre os presidenciáveis, realizado pela Band no último domingo. A verdade é que já escrevi. O assunto foi o tema da minha coluna semanal, publicada lá no Perspectiva Política.

2) Por que Gabeira precisa vencer no RJ.
Por isso:

"Sou ex-Gabeira e cada vez sou mais 'ex'. Compreendi o fracasso que foi o socialismo, o desastre que é Cuba e a Coreia do Norte. Eles destruíram o meio ambiente. Viajei pela ex-Tchecoslováquia e a Alemanha Oriental. O século XX já acabou pra mim."

3) Pena do Brasil...
Foi o que senti ontem, ao acompanhar o debate entre os candidatos ao governo de São Paulo. Depois de ver Geraldo Alckmin falando com tamanha desenvoltura e clareza, não consigo encontrar nenhuma razão lógica capaz de explicar como diabos o povo burro dessepaiz preferiu um semi-analfabeto a ele.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Disse tudo!

"Alguns juízes do TSE, ultimamente, deram para interpretar textos jornalísticos além do que vai escrito — já ensaiam penetrar nas intenções dos autores." - Reinaldo Azevedo.

O pior, Reinaldo, é que não são só os juízes do TSE que deram pra se achar donos das verdades escritas. Qualquer um agora se crê dono daquilo que é colocado no papel, torturando as palavras a fim de que elas confessem algum delito pelo qual o autor possa ser responsabilizado. São apenas protoditadores frustrados, que se viram obrigados a viver no regime democrático. E descontam suas frustrações em indefesas palavras.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Um manifesto pela autodeterminação dos povos. Ou: a defesa do direito que tiranias têm de apedrejar suas mulheres.

Jung Mo Sung é um sujeito curioso. Um legítimo representante daquela catiguria que decidi chamar de "humanistas de um lado só". Ele é aquele tipo de sujeito que se revolta cada vez que um terrorista da Al Qaeda é morto por um soldado americano, mas que acha "legítimo" usar aviões burgueses para explodir prédios neoliberais e capitalistas no centro de Manhattan.

Por que ele é importante? Bem, ele não é. Ele é perigoso, isso sim! Para quem não lembra, Mo Sung é aquele sujeito que há coisa de dois anos atrás escreveu um texto onde defende que os casos de pedofilia dentro da Igreja Católica são decorrentes do celibato clerical. É um inovador! Um descobridor de novas teses, cada uma mais estapafúrdia que a outra. Em sua mais recente elocubração - vá lá... - "acadêmica", Jung Mo Sung decidiu escrever um manifesto em favor da autodeterminação dos povos. Em outras palavras, ele defende o direito que tiranias fascistas, como o Irã, têm de matar suas mulheres a pedradas em praça pública. Transcrevo abaixo alguns trechos do que ele escreveu, intercalados com comentários meus em negrito. A íntegra, caso vocês tenham paciência (e estômago), está aqui.

Diante da reação internacional contra a pena de morte por apedrejamento imposta a Sakineh Mohammadi Ashtiani, iraniana de 43 anos, viúva e mãe de dois filhos, por supostamente cometer adultério com dois homens, o governo iraniano modificou a acusação de assassinado do seu marido. Isto é, ela é culpada; precisa ser morta; não importam as provas ou tipo de acusação. 

Notem que ele parece inclinado a condenar a teocracia fascista governada por Ahmadinejad. Até usa a expressão "suposta", para descrever a acusação existente contra Sakineh. Mas é só uma trapaça redacional. Logo ele muda o rumo das coisas:


Para o mundo moderno e principalmente para as sociedades ocidentais, é incompreensível que uma mulher seja condenada à morte por apedrejamento por causa de adultério.

Exato! Ele tem toda razão. Para o "mundo moderno e ocidental", é realmente incompreensível que uma mulher seja condenada à morte por apedrejamento. E isso não apenas para os casos de adultério, mas para quaisquer casos! O problema é que ainda há sociedades no mundo que admitem tal barbárie. A escolha moral a ser feita é: estamos certos nós, que repudiamos o horror, ou eles, que o praticam? Mo Sung fez sua escolha, como se verá em seguida.


Mas, de acordo com a legislação iraniana, é a lei. (...) E de acordo com a sharia, ou de acordo com a interpretação dada pelos líderes religiosos do Irã, o adultério é um dos crimes que devem ser punidos com apedrejamento até a morte.

Pois é... Assim como, de acordo com a lei vigente na Alemanha nazista, era permitido mandar judeus, homossexuais e ciganos para a câmara de gás. O sujeito começou a relativizar o horror e, mais rápido do que o leitor possa imaginar, estará caminhando de braços dados com ele.

(...) E diante disso, surge uma pergunta para nós: devemos interferir na religião do "outro" ou na legislação de um país soberano em nome de direitos humanos?

Eis aí. Ele se segurou durante dois parágrafos, mas chegou rapidinho no cerne da questão. Jung Mo Sung, um "progressista", um humanista, alguém que, seguramente, não é conservador ou reacionário como este escriba, flerta abertamente com a defesa do horror em seu estado puro. Tudo por quê? Para defender a "religião do outro"; a "lei do outro". Pouco importa que esse "outro" seja um regime fascista, e que a tal religião/lei determine a lapidação de mulheres. O que importa é difundir o sentimento da - como é mesmo que eles dizem? - "tolerância". Sigamos.

Se interferirmos, promovendo ou participando de movimentos de pressão, não estaríamos ocorrendo na soberba de acharmos que sabemos melhor o que é a verdade e os valores religiosos islâmicos?

Não! Eu não me acho no direito de dizer quais são "a verdade e os valores religiosos islâmicos". Deixo isso para os... islâmicos! É problema deles! Mas eu, pessoa livre do mundo democrático, defensor ferrenho das liberdades e garantias individuais, me acho, sim, no direito de apontar o dedo para o Irã e acusar o fascismo primitivo que há na sentença prolatada contra Sakineh. Isso afeta uma - sei lá... - "superioridade arrogante" em face de uma outra cultura? Que se dane! Os meus valores, os valores da civilização ocidental, são, sim moralmente superiores aos deles, afinal nós não apedrejamos nossas mulheres.


E notem que eu nem vou falar sobre a construção ridícula que é essa "estaríamos ocorrendo na soberba"... Eu poderia, por exemplo, perguntar como diabos alguém que se pretende professor faz algo assim, tão sem sentido. Mas o mérito do texto de Mo Sung é tão absurdo, tão declaradamente reacionário (ou deveria dizer "progressista?), que sua redação "sarneyziana" passa desapercebida.

(...) É em casos assim, bem concretos e polêmicos, que os valores abstratos como respeito à religião ou a cultura dos "outros" são provados ou questionados a fundo. (...)

Falso! O respeito à religião e à cultura dos outros não pode nos exigir a cabeça dos valores mais básicos que constituem a sociedade civilizada. Percebam: condenar o Irã porque apedreja mulheres em praça pública não é travar uma cruzada contra o islamismo, em nome do cristianismo e do ocidente. É, antes de mais nada, uma luta para defender os pressupostos mais básicos da civilização, aqueles que nos permitiram sair das cavernas e conviver em sociedade.


Há pessoas que dizem que essa lei não tem fundamento nos ensinamentos de Mohamed, nem no Corão e, que por isso, o mal não é do islamismo. (...) Contudo, os líderes religiosos responsáveis pela "interpretação correta" do islamismo e do Corão em Irã dizem que essa lei está de acordo com Corão e a vontade de Alá.

DANEN-SE OS LÍDERES RELIGIOSOS! Eles acham que a sentença está certa? Que sejam abatidos pelas bombas do mundo democrático e civilizado. É para isso, afinal, que elas existem: para proteger a civilização dos bárbaros que tentam, a todo momento, nos atirar de volta para as trevas do primitivismo. E que os pogreçistas nem tentem tergiversar diante de mim, argumentando que "militarismo não resolve nada". Ah, resolve, sim! Foi ele quem colocou um fim em calhordas como Hitler a Mussolini, lembram? Pode perfeitamente dar conta de um bando de porcos chauvinistas de turbante.



(...) Na história do cristianismo ocidental, tivemos também casos parecidos, como da inquisição ou da caça às bruxas, que foram realizadas em nome do cristianismo, com apoio das suas autoridades religiosas e da parcela significativa do povo cristão.

A passagem acima trata-se de uma trapaça tão vil quanto previsível. Não, sujeito! Você não vai igualar a tradição ocidental à barbárie, por um simples motivo: as duas coisas são incomparáveis! Eu poderia ser ligeiro e dizer que a inquisição, uma chaga no coração da Igreja de Cristo, ocorreu há séculos e foi devidamente criticada por todos os foros possíveis do mundo, inclusive aqui, no ocidente. Já a lapidação de mulheres iranianas acontece agora, em pleno século XXI. E conta com a atuação de idiotas úteis, como Mo Sung, para emprestar suporte moral ao horror invocando essa aberração conhecida como "autodeterminação dos povos". Mas isso, como dito, seria ser ligeiro. Prefiro is a fundo e dizer que o ocidente é, sim, moralmente superior a todo o resto simplesmente porque aqui a regra é a proteção do indivíduo, não seu apedrejamento em praça pública. Ou, ainda, porque aqui se garante a liberdade para que o indivíduo fale, inclusive, contra o próprio ocidente. E no Irã? O que aconteceria com quem levantasse a voz contra a lapidação de Sakineh? 


Se olharmos para a história, veremos que casos de apedrejamento ou punições similares das mulheres adúlteras não são raros. São punições exemplares e violentas para evitar este grande perigo à vida da comunidade.

Eu leio o que vai acima e me pergunto: onde estará a OAB? Onde estará o Ministério Público (alô, Luiz Francisco de Souza!), que não se interessa? Onde estão as várias ONG's que se batem pelas árvores ou pelos filhotes das araras-azuis? Por que ninguém condena publicamente Jung Mo Sung por esse flerte ostensivo com o terror em seu estado puro? Quer dizer que punições como a imposta a Sakineh são comuns? Ora, isso não deveria relativizar o horror, sujeito! Deveria agravá-lo! Outra coisa curiosa: qual seria esse "grande perigo à vida da comunidade"? A mulher condenada a morrer apedrejada? Isso é nojento! É desumano! Não sei o que esse sujeito ensina nas escolas brasileiras, mas ele deveria ser mandado para Irã, onde seus textos serviriam de libelo acusatório para perigosas mulheres adúlteras, e de salvo-conduto para tiranias fascistas.


(...) Uma questão que devemos refletir é por que sempre são as mulheres que são as culpadas e condenadas? A resposta fácil de que é por causa do machismo não responde a questão porque não explica a razão desse tipo de machismo.

Viram que jênio?! Em vez de condenar a lapidação de mulheres em pleno século XXI, o valente sugere que não só as "perigosas adúlteras" deveriam ser apedrejadas em praça pública, mas também os "ricardões". É mesmo um humanista! Pra que promover uma execução bárbara e sumária, se é possível promover duas? Abjeto! O sujeito é simplesmente abjeto!



No evangelho de João, temos um caso de apedrejamento de mulher adúltera (Jo 8, 3-11). (...) Ele [Jesus] não nega o erro do adultério, mas também não aprova o apedrejamento. O que me chama atenção é que ele não discute se a interpretação dada pelos escribas e os fariseus de que a lei de Moisés manda apedrejar a mulher adúltera está correta ou não. (...)

Uma pinóia! Como assim, "não discute a interpretação dos fariseus"? Jesus não só discute, como também estraçalha com ela! Ele deixou claro, ali, um dos pilares da sociedade civilizada e, por que não dizer, ocidental: as leis existem para servir aos homens, não o contrário. Isso porque as leis devem ser instrumentos capazes de compilar referências éticas e morais dos indivíduos, sendo inadmissível que existam em oposição a estas. Torturar as Sagradas Escrituras para tentar relativizar o horror só mostra de forma ainda mais clara a pequenez intelectual de Jung Mo Sung, um "humanista" que prefere se indagar sobre o porquê de não se se apedrejar homens no Irã, em vez de levantar a voz contra o apedrejamento de mulheres. Eu, preso aos meus valores morais, prefiro que ninguém seja apedrejado em praça pública, o que me torna - vejam que coisa! - um conservador. São estes tempos modernos em que vivemos... Progressista e bonzinho mesmo é Jung Mo Sung.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Dilma é uma mentirosa!

Poucas coisas me divertem mais do que apanhar um petista na mentira. Quando o mentiroso flagrado com a boca na butija é ninguém menos que Dilma Rousseff, a ex-terrorista, a diversão é ainda maior! Vejam o que ela disse à Folha Online hoje (íntegra aqui):

A candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, negou ontem ter relação com a contratação, por parte do governo, da mulher de Olivério Medina --representante informal das Farc no Brasil. 

É MENTIRA! Abaixo a prova disso (clique na imagem para ampliá-la):


Não estou bem certo do que a justiça eleitoral pensa a respeito, mas acho que não se pode lutar contra os fatos. E o fato aqui é que Dilma mentiu! E precisa ser desmentida por todos que tenham um pingo de caráter, já que o grosso da imprensa nacional simplesmente publica o que ela fala, sem contraditá-la diante de inverdades flagrantes como essa.

P.S.1: Não sou lá muito versado em matéria de direito eleitoral, por isso indago: Dilma pode mesmo concorrer numa boa? Mesmo estando evidente que emprestou auxílio material a uma terrorista?! Se Dilma, apesar disso, é uma "ficha limpa", o que seria preciso para ser "ficha suja"? Matar a mãe?!

P.S.2: O que está escrito neste post pode ser dito livremente em nome da verdade e da liberdade de expressão? Ou vai ser considerado propaganda negativa pela justiça? Na dúvida, melhor deixar claro que tenho a intenção apenas de informar, sem ofender qualquer pessoa - seja ela honrada, ou não...

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Por que sou um "porco direitista".

Vejam o que vai abaixo, publicado no Observatório de Imprensa (e tentem não vomitar):

O 1º Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas, de 20 a 22 de agosto, se realizará em São Paulo. Já estão inscritos 152 blogueiros, todos progressistas, de 15 estados (na hora em que o caro colega estiver lendo esse texto, já haverá mais inscritos). E quem paga a conta? Em boa parte, o imposto sindical - aquele dia de salário descontado compulsoriamente de todos os empregados, sejam ou não sindicalizados, em todo o país, sejam progressistas, liberais ou conservadores, e entregue aos sindicatos e centrais sindicais. Alguns patrocinadores: Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial, SP), CUT, CTB (Central dos Trabalhadores e das Trabalhadoras do Brasil), Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Sindicato dos Engenheiros, FNU (Federação Nacional dos Urbanitários), Federação dos Químicos de São Paulo.

Por que essa notinha está aqui? Simples: para que todos os leitores do blog entendam, de uma vez por todas, por que sou, nos padrões brasileiros, um conservador. Ou melhor: por que sou - como os pogreçistas gostam de dizer - um "porco direitista.

Não me venham mais com dúvidas, ok? Eu definitivamente não sou um progressista! Muito pelo contrário até: sou um reacionário! Isso porque reajo com indignação diante de coisas absurdas como o que vai acima. Progressista, eu? Nunca! Este blog defende que o dinheiro do trabalhador fique com o... trabalhador! E não seja usado para financiar proselitismo político-partidário voltado para entreter um punhado de nerds obesos de esquerda.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Jornal americano chama Lula de "melhor amigo dos tiranos". Ou: cadê a coragem de multar eles, TSE?

Em momentos como este eu me regozijo. Uma das frases que digo reiteradamente neste blog é a seguinte: os americanos são melhores que nós. E melhores em tudo! E isso - claro! - provoca urticárias no nacionalismo-bocó e terceiro-mundista que caracteriza essepaiz.

Mas eu dizia que me sinto feliz! Por quê? Bem, porque o texto de Jackson Diehl, publicado hoje no Washington Post, mostra bem porque os Estados Unidos são a maior e mais duradoura democracia que o mundo já conheceu. Leiam o que vai abaixo, publicado na Folha Online:

O "melhor amigo dos tiranos no mundo democrático". Assim foi definido o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em artigo do jornalista Jackson Diehl, subdiretor da seção de opinião do jornal americano "Washington Post". (...)

Diehl diz que Lula "foi mais uma vez humilhado por um de seus clientes", o líder iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, "patrocinador do terrorismo e que nega o Holocausto, a quem Lula publicamente abraçou --literalmente". (...)

O líder iraniano "não é o único ditador a explorar o apoio incondicional de Lula", continua Diehl em seu artigo. "Lula estava ocupando alisando Raul e Fidel Castro em Cuba em fevereiro passado, quando o regime anunciou que um dissidente preso, Orlando Zapata Tamayo, morreu em greve de fome".

O articulista finaliza lembrando do boato de que Lula sonha em ser o próximo secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas). "Daí seu desejo de demonstrar que pode persuadir governantes como Ahmadinejad a dar ouvidos à razão. Só que --aparentemente, ele não pode", escreveu Diehl.

Por que os Estados Unidos são melhores que nós? Simples: 1) Lá, a imprensa é livre para criticar políticos de qualquer lugar do mundo - inclusive o presidente de lá, Barack Obama; 2) Lá, o poder judiciário se ocupa de garantir a democracia e as liberdades individuais, inclusive a liberdade de expressão.

Isso quer dizer que nos EUA não vai aparecer um juiz mandando o Washington Post retirar do ar o artigo de Jackson Diehl, nem multar o jornalista. Lá, a liberdade de expressão é regra, não algo que esteja à mercê dos desejos totalitários de qualquer autoridade.

O Brasil deveria se mirar nos exemplos de liberdade que vêm da democracia mais sólida da história, não cuidar de destroçar, dia após dia, as garantias democráticas.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

A supremacia do Estado de direito e das liberdades individuais.

Eu não preciso lembrar a ninguém o que penso a respeito de Eros Grau, ex-ministro do STF. Já escrevi algumas coisas acerca do que ele pensa e defende, tendo deixado claro, desde sempre, que não guardo qualquer proximidade moral, política ou ideológica com ele. Por que digo isso agora? Para deixar claro que se me vejo obrigado a elogiar a entrevista que Grau concedeu ao Estadão hoje, o faço porque realmente o ex-ministro foi ao ponto em todas as suas colocações. Não encontrei uma única palavra que merecesse reparação.

"Ah, então antes você criticou ele, mas agora concorda com o que ele diz?", zurrará o quadrúpede mais afobado. Sim, Isso mesmo! Vejam que excentricidade: quando concordo com algo, digo que concordo. Quando discordo, digo que discordo. Simples assim.

Transcrevo abaixo alguns trechos da referida entrevista. Leiam com atenção. O objetivo deste post não é apenas aplaudir as pertinentes colocações de Grau, mas reafirmar a defesa incondicional do Estado de direito e das liberdades individuais, sem os quais só nos restaria a barbárie.

(...) O que está em jogo [com a lei "ficha limpa"] não é a moralidade pública?

Sim, é a moralidade pública. Mas a moralidade pública é moralidade segundo os padrões e limites do estado de direito. Essa é uma conquista da humanidade. Julgar à margem da Constituição e da legalidade é inadmissível. Qual moralidade? A sua ou a minha? Há muitas moralidades. Se cada um pretender afirmar a sua, é bom sairmos por aí, cada qual com seu porrete. Vamos nos linchar uns aos outros. (...)


A profusão de liminares concedidas a candidatos, inclusive pelo Supremo, não confunde o eleitor?

Creio que não. Juízes independentes não temem tomar decisões impopulares. Não importa que a opinião publicada pela imprensa não as aprove, desde que elas sejam adequadas à Constituição. O juiz que decide segundo o gosto da mídia não honra seu ofício. De mais a mais, eleitor não é imbecil. Não se pode negar a ele o direito de escolher o candidato que deseja eleger. 


(...) A Lei da Ficha Limpa é resultado de grande apelo popular ao qual o Congresso se curvou. O interesse público não é o mais importante?

Grandes apelos populares são impiedosos, podem conduzir a chacinas irreversíveis, linchamentos. O Poder Judiciário existe, nas democracias, para impedir esses excessos, especialmente se o Congresso os subscrever.


Não teme que a Justiça decepcione o País?

Não temo. Decepcionaria se negasse a Constituição. Temo, sim, estarmos na véspera de uma escalada contra a democracia. Hoje, o sacrifício do direito de ser eleito. Amanhã, o sacrifício do habeas corpus. A suposição de que o habeas corpus só existe para soltar culpados levará fatalmente, se o Judiciário nos faltar, ao estado de sítio.


O senhor teme realmente uma escalada contra a democracia?

Temo, seriamente, de verdade. O perecimento das democracias começa assim. Estamos correndo sérios riscos. A escalada contra ela castra primeiro os direitos políticos, em seguida as garantias de liberdade. Pode estar começando, entre nós, com essa lei. A seguir, por conta dessa ou daquela moralidade, virá a censura das canções, do teatro. Depois de amanhã, se o Judiciário não der um basta a essa insensatez, os livros estarão sendo queimados, pode crer.


(...) Que críticas o senhor faz à forma do Judiciário decidir?

As circunstâncias históricas ensejaram que o Judiciário assumisse uma importância cada vez maior. Isso pode conduzir a excessos. (...) O direito moderno é a substituição da vontade do rei pela vontade da lei. Agora, o que se pretende é que o juiz do Supremo seja o rei. É voltar ao século 16, jogar fora as conquistas da democracia. Isso é um grande perigo.


(...) O senhor tem coragem de votar em um político com ficha suja?

Entendido que "ficha-suja" é unicamente quem tenha sido condenado por sentença judicial transitada em julgado, certamente não votarei em um deles. Importante, no entanto, é que eu possa exercer o direito de votar com absoluta liberdade, inclusive para votar em quem não deva. (...)

Neste tema eu concordo inteiramente com Eros Grau. Os temores do ex-ministro são os meus temores também, afinal a judicialização da democracia nunca pode ser vista com bons olhos. Como ele bem frisou, o indivíduo deve ter garantida a liberdade de votar, ainda que seja no candidato errado. Assim funciona um Estado de direito. As escolhas "erradas" do eleitor não podem ser corrigidas limando as liberdades individuais, sob pena de se advogar o retorno à barbárie.

Há coisa de dois anos, escrevi sobre essa lei "ficha limpa" (na época ainda era projeto de lei) aqui mesmo neste blog. Transcrevo abaixo um pequeno trecho do que escrevi então:

A Suprema Corte brasileira já decidiu acerca do tão propalado princípio absoluto da presunção de inocência, segundo o qual ninguém será considerado culpado antes do trânsito em julgado da sentença final condenatória. É exatamente em razão deste entendimento jurídico que os tais candidatos ficha-suja, expostos pela OAB, ganharam o direito de concorrer nestas eleições.

Pessoalmente, discordo, no mérito, da interpretação do STF. Prefiro a Justiça anglo-saxã, que já mitigou há décadas a presunção absoluta de inocência. No julgado emblemático da Suprema Corte americana foi dito o seguinte: "Não podemos, em nome de nossos ideais, conferir aos inimigos da liberdade e da democracia prerrogativas que estes, em razão dos seus, nos tirariam." É brilhante! Apesar disso, o entendimento do Brasil é outro e, no final das contas, é o que vale.

Como se vê, em essência, até discordo da maneira como a suprema corte brasileira vê o princípio da presunção de inocência. Acho que eles olham por um prisma errado, que termina por causar, sim, algumas distorções. Prefiro, como está inequivocadamente dito acima, o prisma anglo-saxão.

Contudo, a partir do momento em que aceitamos a democracia como sistema civilizatório, cumpre entender, de uma vez por todas, que a Constituição impera com força soberana sobre as demais normas, cabendo ao STF dizer quando algum princípio da Magna Carta sofre ameaça. No caso da tal lei "ficha limpa", entendo que há ameaças, sim! Não pelos danos decorrentes daquela lei em si, mas por abrir uma perigosa fenda na trincheira das garantias democráticas. Nada impede que, mais adiante, alguém apareça dizendo que é "vontade popular" ver o fim do habeas corpus, como bem lembrou Eros Grau.

Contra a judicialização das eleições.

Abaixo transcrevo algumas passagens de um texto espetacular escrito pelo Reinaldo Azevedo. Ele explica de forma simples e objetivo por que é um risco demasiado grande permitir a judicialização das eleições - e da democracia como um todo -, amarrando os cidadãos e cerceando as liberdades democráticas.


No mundo democrático, as eleições servem para que os postulantes sejam confrontados com as verdades dos adversários e com as suas próprias verdades. E qualquer decisão oficial que lembre ou cheire a censura é, evidentemente, impensável. Por aqui, as coisas parecem tomar outro rumo. Por aqui, lembrar a trajetória de um partido e de um governo, suas escolhas, seus vínculos ideológicos, suas afinidades eletivas caminha para o terreno do crime. (...)

Talvez eu deva pedir o concurso dos ministros do TSE para me instruir no exercício da escrita e na lida com o vocabulário — já que o Houaiss e o Aurélião, suponho, caminham para a obsolescência. Depois da judicialização das eleições, chegaremos à judicialização do dicionário — que é, convenham, aonde chegam as tiranias. 

Se eu escrever que o governo do PT mantém vínculos especiais com um governo que financia o terrorismo em três países — como é o caso do iraniano —, estou (pode-se assinalar mais de uma alternativa):
(  ) falando a verdade;
(  ) fazendo uma calúnia;
(  ) exercendo um direito garantido pelo Artigo 5º da Constituição;
(  ) cometendo crime eleitoral;
(  ) sendo indelicado com os petistas.
O Houaiss oferece sinônimos para “vínculo” — entre eles, “liame”, “relação”, “relacionamento”. Tendo a achar que Lula mantém “relação”, “relacionamento”, com Ahmadinejad, que, inequivocamente, financia o terrorismo no Líbano, no Iraque e nos territórios palestinos, o que é reconhecido até por Mahmoud Abbas. E dizer que o governo petista mantém “vínculos” com um líder abertamente anti-semita? Posso ou não? Ou será que o tribunal pretende que eu tenha com a reputação do PT o cuidado que o próprio PT não tem?

(...) É claro que, em considerações dessa natureza, também entram valores. Eu tenho um desprezo absoluto por demagogos, traficantes, terroristas e ditadores. Outros podem achar que eles devem ser tolerados como parte da fauna humana. 

(...) Alguns acham que assim está bom. Eu avalio se tratar de uma postura detestável. A sociedade é feita dessa diversidade. Não me parece que caiba à Justiça decidir que valor é ou não aceitável desde que nos limites do que a Constituição resguarda. Países se tornaram grandes libertando as palavras, em vez de aprisioná-las, como Fidel, Ahmadinejad e as Farc fazem com seus adversários.

Se a imprensa, políticos ou, sei lá, entidades não puderem atribuir a um partido aquilo de que esse próprio partido se orgulha — mas não necessariamente com o seu mesmo viés —, então é melhor desligar as urnas e decidir a eleição num tribunal. A gente pode trocar 134 milhões de eleitores por apenas sete, que decidirão, então, por nós…

Perfeito! Quero até reforçar duas passagens que são a síntese do mundo democrático civilizado:

- "Não me parece que caiba à Justiça decidir que valor é ou não aceitável"

- "Países se tornaram grandes libertando as palavras, em vez de aprisioná-las"

Espero que as instituições democráticas encarregadas de zelar pela democracia lembrem sempre do que vai acima. Ou se escolhe o lado das liberdades individuais, defendendo o direito inegociável que a sociedade tem de pensar e se expressar, ou se estará desvirtuando a democracia de forma irreparável.