A chuva que caiu incessantemente ao longo da última sexta-feira, parecia querer ecoar o pranto e a tristeza de toda a nossa família. Naquele dia, em meio a um frio que penetrava até os ossos e fustigava a alma, fomos levados, contra toda e qualquer vontade, a nos despedir da nossa princesinha Letícia. Minha sobrinha linda, com apenas um mês de vida, deixou de ser mais uma criança destinada a crescer junto com os priminhos. Em vez disso, Letícia agora é uma pequena anjinha. Nossa pequena anjinha...
A doença, repentina e fulminante, que roubou a vida da nossa lindinha, nada pôde fazer contra a beleza angelical dela. Foi forte o bastante pra machucar demais aquela pequenina pessoa, mas foi-se embora sem sequer macular nossa anjinha, até o fim deitada em repouso singelo; alva como uma pradaria coberta pela neve numa manhã de inverno, parecendo prestes a abrir aqueles olhinhos expressivos e chorar, pedindo pelo nosso colo.
E agora quem precisa do colo dela somos nós. Somos nós os frágeis e desprotegidos, que sentimos necessidade de abraçar, acalentar, acarinhar. Mesmo sabendo que ela estará para sempre com cada um de nós, guardadinha num lugar só dela, entre o coração e alma, não é fácil aceitar que ela teve de ir. Nunca será fácil... A tristeza, esta mejera, está sempre espreitando, tentando nos empurrar para um canto; para um chorro contínuo e profundo. Mas então eu lembro da nossa Letícia. Da nossa, "ALEGRIA PLENA".
Nem toda a confusão de sentimentos, nem a incerteza ou o temor que se abateram sobre nós nestes dias, conseguiram me fazer esquecer que a nossa anjinha, com seu nome lindo a gritar "alegria plena" para todos os lados, é e será sempre motivo de felicidade.
É essa "alegria plena" que brota de dentro da Josiana, mãe dessa pequenina, e faz emanar uma serenidade algo pacificadora. Ela consola a todos nós com um sorriso lindo que, embora marcado por um sofrimendo dilacerante, deixa transparecer desde agora aquela força própria da certeza que só o amor verdadeiro nos dá.
É essa mesma "alegria plena" que conseguiu encher de forças o pai, Daniel, para que ele carregasse nossa anjinha no colo até o fim; naquele colo protetor que é e sempre será o lugarzinho dela.
A saudade e a dor vão estar sempre presentes, companheiras indesejáveis que são e chegam sem pedir licença. Mas o espaço delas será sempre pequeno; cada vez menor. Se é verdade que chegam rápido e machucam, também é certo que são derrotadas por todas as lembranças maravilhosas da nossa pequena. Da nossa "alegria plena".
De repente, fica fácil entender como Letícia cativou tanta gente em tão pouco tempo. Pessoas que nunca a tinham visto, torceram, rezaram, se comoveram. Aliás, foi algo muito maior que isso: gente que não conhece pessoalmente nenhuma pessoa da família foi solidária desde o primeiro momento. Terão sido a tristeza e o drama capazes de arrebatar tantos, na esperança de ver Letícia ficar bem? Não! Isso só pode ser fruto dessa "alegria plena", que emanou da nossa anjinha e foi aquecer o coração de pais, tios, avós, familiares e amigos - conhecidos e desconhecidos.
O amor que ela irradiou até o fim. Que vai irradiar para todo o sempre. Esse amor que continuou a emanar dela mesmo depois que o último suspiro já havia fugido, e que aqueceu nossos corações sofridos naquela sexta-feira chuvosa que nunca sairá das nossas mentes.
Percebo, assim, que não eram os pais que tentavam confortar e aquecer a nossa princesinha, segurando-lhe as mãozinhas pequenas e banhando-a, de quando em vez, com lágrimas apaixonadas. Era ela, a nossa anjinha, quem segurava e acalentava eles, transmitindo amor e "alegria plena".
E agora é reaprender a viver. Não há que se falar em "retomar a rotina", porque nossa rotina precisaria da presença dela para estar completa. Na verdade, agora precisamos todos aprender a construir uma nova rotina. Saber conviver com a saudade dos poucos mas maravilhosos dias em que nossa anjinha esteve conosco, acompanhada da estranha saudade daquilo que nem vivemos junto dela. Levar adiante a vida um dia de cada vez, ensinando aos priminhos que ela já tem, e aos que certamente virão, que todos agora temos uma anjinha linda; uma estrelinha brilhante apacentando nossos corações.
Letícia nunca será motivo para tristeza. Letícia será sempre e só alegria. A nossa alegria. A alegria de todos os amigos que se apaixonaram por ela, mesmo sem jamais tê-la visto pessoalmente. A nossa "ALEGRIA PLENA"!